Conselhos do Padre Manuel Antunes ajudaram Eanes durante revolução

O general Ramalho Eanes admitiu hoje que os conselhos que recebeu do padre Manuel Antunes terão contribuído muito para se manter "lúcido e coerente" durante os tempos conturbados que se seguiram à Revolução em Portugal.

Agência LUSA /

Estes aspectos da influência do padre jesuíta, pedagogo e ensaísta, falecido em 1983, na vida de Ramalho Eanes foram revelados durante um discurso do ex-Presidente da República na abertura do congresso internacional "Padre Manuel Antunes - Interfaces da Cultura Portuguesa e Europeia".

A iniciativa, que decorre na sede da Fundação Calouste Gulbenkian até sábado, pretende assinalar o aniversário da sua morte, em 1983, e é organizada por esta instituição em conjunto com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde o jesuíta foi professor durante vinte anos.

Na sessão de abertura do congresso, Ramalho Eanes confessou que muitas vezes recorreu aos seus conselhos, que "muito terão contribuído para que continuasse lúcido e coerente durante os tempos conturbados de Abril, com a institucionalização da democracia".

"Com ele aprendi que é possível conjugar pragmatismo e utopia", acrescentou, classificando o padre Manuel Antunes "um dos melhores dos nossos maiores, que em muito contribuiu para a liberdade" e "nunca se sujeitou ao politicamente correcto nem aos paradigmas da ditadura do ensino" durante o período do Estado Novo.

Estava prevista a presença de Eduardo Lourenço no primeiro dia do congresso para apresentar uma conferência sobre "A visão da cultura portuguesa em Manuel Antunes", mas o ensaísta não esteve presente por motivo de doença.

No entanto, enviou uma mensagem que foi lida aos participantes que encheram o auditório principal da Fundação Gulbenkian, na qual elogiou a "profunda tolerância intelectual" de Manuel Antunes porque "respeitou os autores que leu, comentou e deu a ler".

"Foi fiel à conciliação entre fé e razão e foi um conciliador nato, mas não eclético", considerou ainda, na missiva.

O congresso vai continuar até sábado com diversas conferências sobre a vida e pensamento do padre jesuíta, que exerceu como professor na Faculdade de Letras entre 1957 e 1983.

Padre jesuíta, pedagogo e ensaísta especialista em Cultura Clássica e professor, foi no ano da morte condecorado pelo então Presidente da República, General Ramalho Eanes, com as insígnias de Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago de Espada.

Para assinalar a efeméride, a Fundação Calouste publicou também as obras completas do homenageado, considerado um dos maiores pensadores portugueses do século XX.

A Multinova - União Livreira e Cultural, S.A. também reeditou uma das suas mais emblemáticas obras intitulada "Repensar Portugal", lançada em 1979 e agora republicada com um longo prefácio sobre o autor, uma crono-biografia e um índice onomástico.

"Repensar Portugal", que se encontrava esgotada desde há alguns anos, segundo a editora, é uma espécie de obra de referência do pensamento de Manuel Antunes, contendo os seus fundamentos doutrinários nos domínios do social, da política, da cidadania e da ética.

Nascido em 1918 na Sertã, o padre jesuíta licenciou-se em Filosofia no Instituto Beato Miguel de Carvalho, frequentou a Faculdade de Teologia de Granada e foi depois convidado pelo professor Vitorino Nemésio a leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa.

Director e redactor da prestigiada revista Brotéria (1965- 1982), ao longo da sua carreira o padre Manuel Antunes defendeu que a reforma da educação e da economia deveriam ser prioritárias para levar a cabo a modernização do país.

No congresso vai ser exibido um documentário realizado a partir de depoimentos de algumas das cerca de 15.000 pessoas que foram alunas do padre jesuíta na Faculdade de Letras.

Entre eles estão, além de Ramalho Eanes, o actual reitor da Universidade de Lisboa, José Barata Moura, ou a actriz Maria do Céu Guerra, entre outras personalidades que conviveram de perto com Manuel Antunes.

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