Corema acusa IPPAR e IPA de serem comissões liquidatárias do património
A associação ambientalista Corema, de Caminha, acusou hoje o IPPAR e o IPA de actuarem "como meras comissões liquidatárias do património", produzindo pareces "esquizofrénicos" sobre o traçado de ligação da A-28 a Caminha.
Em comunicado, a Corema critica ainda o IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico) e o IPA (Instituto Português de Arqueologia) pela "tibieza" e pelo "cinismo indisfarçável" demonstrados ao longo do processo de aprovação daquele traçado.
Após dois chumbos por parte do Instituto do Ambiente, o traçado da ligação da A-28 à EN-13, na confluência dos concelhos de Caminha e Vila Nova de Cerveira, acabou por receber "luz verde", o que levou a Corema a interpor uma providência cautelar para tentar travar o processo.
"Embora estes organismos afirmem que o Monte de Góios, em Lanhelas, Caminha, é um autêntico santuário de arte rupestre, deixam que a estrada rasgue as suas vertentes", referiu à Lusa o líder da Corema.
José Guadino referia-se, nomeadamente, a um ofício do IPPAR, datado de 04 de Maio último, onde aquele organismo afirma reconhecer a existência no Monte de Góios de "dois núcleos de importância elevada de arte rupestre" e que "não está de questão" a ocorrência de novas lajes com gravuras no local.
"A eventualidade de a construção da via concorrer para uma descaracterização não só dos elementos gravados mas também do seu enquadramento natural, levou-nos a considerar oportuno aguardar pelo desenvolvimento do processo de construção rodoviário e dos impactes gerados", lê-se ainda no ofício do IPPAR.
Para a Corema, com estes pareceres, o IPPAR e o IPA prosseguem "na senda de passar autênticas certidões de óbito aos testemunhos histórico-culturais desta região".
A associação aponta, como exemplos, o Castro de Vieito, em Perre, Viana do Castelo, "que foi pura e simplesmente arrasado pela construção da auto-estrada", e alguns moinhos centenários da encosta do Monte da Gávea, Vilar de Mouros, Caminha, "igualmente destruídos".
A Corema lembra que a ligação da A-28 a Caminha ameaça, nomeadamente, a Laje das Fogaças, classificada como Monumento Nacional, e a Lage das Carvalheiras, que também já mereceu do IPPAR um despacho determinando a abertura da instrução do respectivo processo de classificação.
A associação adianta já ter avançado com o pedido de classificação de 14 novas rochas no mesmo monte, mas dá conta de que o IPPAR decidiu "bloquear" o processo, "não fosse o mesmo prejudicar outros interesses, que conflituam com a salvaguarda de um património que, num Estado de Direito e num país moderno e minimamente culto, seria preservado desde a primeira hora".
"O IPPAR e o IPA actuaram, em todo este processo, de forma pouco consentânea com os fins que lhes são próprios, mais parecendo meras comissões liquidatárias do património", sublinha a Corema.
Contactada pela Agência Lusa, a directora regional do Norte do IPPAR, Paula Silva, disse que só faria qualquer comentário sobre o assunto depois de ter "conhecimento oficial" do teor do comunicado da Corema.
Segundo José Gualdino, além da ameaça ao património arqueológico, o processo configura também "um claro atropelo à legalidade", por não ter havido consulta pública ao "novo" traçado.
Posição diferente tem a Câmara de Caminha, que minimiza estas críticas e preocupações, sublinhando que a aprovação, tanto pelo IPPAR como pelo Instituto do Ambiente, "indicia a salvaguarda dos impactos paisagísticos e patrimoniais" da região.