Cremação aumenta 25 por cento ao ano em Portugal
Os funerais por cremação têm aumentado cerca de 25 por cento ao ano em Portugal e os dois centros crematórios de Lisboa são insuficientes para responder à procura crescente, disse hoje fonte da maior agência funerária do país.
"A cremação assume hoje um papel preponderante nos serviços que as agências funerárias oferecem aos clientes", frisou o director comercial da Servilusa, Paulo Carreira, que falava à Lusa à margem do seminário "Novos desafios do século XXI - A morte nas grandes metrópoles", organizada pela empresa funerária.
A mesma fonte disse que existem apenas dois crematórios em Lisboa, no cemitério do Alto São João e dos Olivais, que "não dão resposta às solicitações", chegando-se a esperar cinco dias por uma cremação.
Para a socióloga Isabel Moço, que participou no mesmo seminário, o aumento da cremação explica-se por questões de higiene, mas também para seguir o exemplo de várias figuras públicas, como aconteceu recentemente com Álvaro Cunhal.
A socióloga lembrou também o caso do escritor brasileiro Jorge Amado, que sempre referiu que depois de morto queria ser cremado e enterrado junto do quintal.
"As pessoas têm muito esse imaginário de que podem ser enterradas no quintal ou que as suas cinzas podem ser lançadas ao mar, mas isso não é verdade", salientou, acrescentando que a cremação também tem alterado a forma como as pessoas vivem a própria morte.
Paulo Carreira aponta como razão para este aumento o facto de o enterro obrigar a uma exumação legal após um prazo de três a cinco anos.
Os rituais ligados à morte também vindo a mudar nos últimos anos, com as pessoas a usarem cada vez menos o luto como expressão de dor.
"O luto vive-se de forma diferente em Portugal", afirmou Isabel Moço, exemplificando que em "Trás-os-Montes ainda se vive o luto de negro e o recato da pessoa durante um certo período de tempo".
Nas cidades, os lutos vivem-se sobretudo através dos sentimentos e não tanto pela exteriorização, adiantou a socióloga, sublinhando que a "vida urbana, o desenvolvimento das sociedades e os seus imperativos de tempo e espaço condicionam a manifestação socializada da morte".
Outro sinal do tempos é o facto de as pessoas recorreram cada vez mais à preparação estética do falecido, uma técnica que permite devolver-lhe a sua aparência normal.
Para Isabel Moço, as pessoas recorrem cada vez mais a esta prática "porque a sociedade contemporânea é muito preocupada com a estética e com a imagem, tendo essa ideia acabado por se transferir para a indústria funerária".
"Há cerca de 18 meses a Servilusa, que realiza cerca de 6.000 funerais por ano", fazia a preparação estética a 30 por cento dos casos, actualmente faz a 100 por cento dos casos", salientou Paulo carreira.
Presente no seminário, a directora do serviço de Tanatologia Forense do Instituto de Medicina Legal, da delegação de Lisboa, Isabel Ribeiro, adiantou que Lisboa regista cerca de 15 mil óbitos por ano, dos quais apenas 10 por cento (1.500) são sujeitos a autópsia.
As pessoas têm "muita pressa em despachar a autópsia", afirmou a responsável, explicando que esta situação está relacionada com "a tentativa de diminuir o tempo em que as pessoas estão em suspenso até que o corpo seja enterrado ou cremado".
Por outro lado, consideram que a autópsia "vai castigar ainda mais as pessoas que estão em sofrimento, acrescentou.
Isabel Ribeiro defendeu que os familiares das vítimas devem ser esclarecidos "num local apropriado" sobre a realização da autópsia - que deve ser realizada em casos de morte violenta ou de causa ignorada, ordenadas pelo Ministério Público - para tentar minorar a sua ansiedade.