Curry Cabral comemora 555 transplantes hepáticos e vai usar dadores vivos
O Hospital Curry Cabral prepara-se para introduzir em Portugal o transplante de fígado com dador vivo, numa altura em que a instituição assinala o 555º transplante hepático e lamenta a diminuição de órgãos doados.
Apesar do Hospital Curry Cabral já ter efectuado até hoje 567 transplantes, esta unidade de saúde vai assinalar aquele número (555) quinta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.
No evento, que contará com a presença do ministro da Saúde, será lançado o livro "Voando sobre um transplante", da autoria de Matos Guia, um doente transplantado que conta nesta obra a experiência por que passam estes pacientes.
O director do Centro Hepato-bilio-Pancreático e de Transplantação do Hospital Curry Cabral, Eduardo Barroso, realçou à Agência Lusa a importância de ultrapassar a barreira dos 500 transplantes.
Nos últimos anos, o Hospital Curry Cabral registou um progressivo aumento de transplantes de fígado, o qual se deve ao apetrechamento das infra-estruturas que permitiu "responder à procura", disse.
Em 1992, o Hospital Curry Cabral realizou quatro transplantes hepáticos, nove em 1993 e 1994, 14 em 1995, 21 em 1996, 26 em 1997, 22 em 1998, 44 em 1999, 49 em 2000, 66 em 2001, 69 em 2002, 79 em 2003 e 84 em 2004.
Além dos transplantes, esta unidade de saúde efectuou 150 cirurgias ao fígado e ao pâncreas.
Eduardo Barroso realçou que, actualmente, praticamente não existem listas de espera para cirurgias a doentes hepáticos e pancreáticos, sendo objectivo desta instituição a realização da operação uma semana após o diagnóstico.
Em relação aos transplantes de fígado, o médico afirmou que estes são, na maioria, efectuados em dois tipos de doentes: os portadores da "doença dos pezinhos" - que têm um fígado que produz uma proteína que lhes destrói o órgão - e os hepáticos crónicos (cirroses) ou com cancros.
A nível geral, a percentagem de sobrevivência após dez anos de transplante situa-se nos 74 por cento, um valor "superior à média europeia", segundo Eduardo Barroso.
Os piores resultados situam-se nas hepatites fulminantes - em doentes que chegam em coma e podem morrer no espaço de 48 horas -, em que a percentagem de sobreviventes no primeiro ano é de 65 por cento e de 60 por cento ao fim de dez anos.
Na "doença dos pezinhos", a taxa de sobrevivência é de 85 por cento após cinco anos e de 83 por cento após dez anos de transplante.
As cirroses registam 76 por cento de sobrevivência após dez anos de transplante. Nos doentes com cancros malignos, a sobrevivência é de 68 por cento após dez anos do fígado transplantado.
Sobre a doação de órgãos, Eduardo Barroso revelou-se "preocupado" com uma redução de doações que se tem registado nos últimos tempos.
Em 2004, Portugal ocupou o terceiro lugar doação de órgãos: 22 doações por milhão de habitantes.
Este ano, o número tem vindo a diminuir e este facto não se deve à existência de mais cadáveres na lista de não dadores de órgãos, a quem não é autorizada a retirada de órgãos.
Segundo Eduardo Barroso, é necessária uma maior sensibilização junto das unidades de cuidados intensivos, de modo a que, quando existirem cadáveres ligados ao ventilador, a sua existência seja atempadamente comunicada ao gabinete de colheita.
O Centro Hepato-Bilio-Pancreático e de Transplantação irá em breve iniciar o transplante de dador vivo, uma intervenção que até agora apenas se realizou a nível pediátrico (a mãe doar parte do fígado ao filho).
Trata-se de uma intervenção muito delicada, pois o dador pode correr risco de vida, o qual se situa nos 0,02 por cento.
Para o início do transplante com dador vivo, o Centro aguarda apenas a aquisição de um fluxómetro - aparelho para medição do débito dos vasos sanguíneos - que custa 43 mil euros, um valor que o hospital espera alcançar através do mecenato.