D. José Policarpo admite que desapareçam das paredes das escolas
É uma polémica que entrou há algum tempo no Velho Continente: a manutenção de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos, particularmente em escolas. Contrariando o Vaticano, o Cardeal Patriarca veio ontem deixar às próprias comunidades locais a decisão "ponderada" de manter ou retirar os crucifixos nos estabelecimentos escolares. D. José Policarpo sustenta que em Portugal nunca o crucifixo foi imposto nas salas de aula.
Em Novembro passado, em Itália, uma mãe exigiu que fossem retirados os crucifixos das paredes da escola frequentada pelos filhos. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos deu-lhe razão, defendendo que "a exibição obrigatória do símbolo de uma determinada confissão em instalações utilizadas pelas autoridades públicas e, especialmente, em aulas, restringe os direitos paternos de educarem os seus filhos em conformidade com as suas convicções".
Na mesma altura, a Associação República e Laicidade remetia um pedido idêntico ao Ministério português da Educação, estendendo a medida a todos os símbolos religiosos independentemente da confissão.
Na Alemanha, a muçulmana Aygul Ozkan prestava juramento a 27 de Abril como ministra dos Assuntos Sociais do Executivo da Baixa-Saxónia, liderado pelo democrata-cristão Christian Wullf. Na bagagem levava já uma polémica: Ozkan defende a proibição dos crucifixos nas salas de aula de escolas públicas.
É portanto inevitável que o assunto venha a ser objecto de debate alargado em Portugal. Para tanto bastará que um elemento de uma comunidade escolar aponte incómodo com a existência de um crucifixo nesse espaço.
Antecipando uma eventual polémica, o Cardeal Patriarca de Lisboa defendeu este domingo durante a inauguração de um centro escolar em Alvorninha (Caldas da Rainha), sua freguesia natal, que a colocação de crucifixos nas escolas deve respeitar a decisão das próprias comunidades.
Diz D. José Policarpo que "a existência de crucifixos nas escolas é uma questão que deve ser vista com sentido de respeito pelas comunidades", lembrando que, "ao longo dos tempos, sobretudo no século XX, durante o Estado Novo e depois, nem a igreja nunca exigiu isso, nem o Governo nunca o proibiu", acabando a colocação de crucifixos nas salas de aula "por ser espontânea e sempre um pouco ao nível da decisão da comunidade local".
Posição diferente é sustentada pelo Vaticano que, no final de 2009, lamentava a decisão do tribunal europeu em relação ao caso italiano.
"A nossa reacção só poderia ser uma reacção de lamento e agora vamos reunir todas as nossas forças para conservar os símbolos da nossa fé para os crentes e não crentes. Esta Europa do terceiro milénio dá as abóboras das festas celebradas antes do dia 1 de Novembro (dia do Halloween, nos Estados Unidos) e, ao mesmo tempo, retira os símbolos mais queridos", verberou Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano.