Defesa de Abrantes diz que razões que ilibaram Paulo Pedroso deviam valer para todos os arguidos
Lisboa, 19 Dez (Lusa) - O advogado do arguido Manuel Abrantes disse hoje no tribunal que as razões que levaram a que o ex-ministro Paulo Pedroso não fosse julgado no âmbito de processo de pedofilia da Casa Pia deveriam ter abrangido os restantes réus.
"As razões em que assenta a não pronúncia de Paulo Pedroso deveriam ter levado ao não pronunciamento dos restantes arguidos", disse Paulo Sá e Cunha, referindo-se a falhas no processo de identificação dos alegados abusadores de alunos da instituição de ensino lisboeta.
"Caindo por terra a identificação desta pessoa, não vejo que o tribunal possa fazer outra coisa que não seja absolver estes arguidos", disse.
Sustentou que o método de identificação através de fotografias apresentadas às alegadas vítimas é "destituído de credibilidade" e "pouco mais do que caricato".
À saída do Tribunal de Monsanto, em Lisboa, Paulo Sá e Cunha disse aos jornalistas que "o que pode ser um vício e um defeito na identificação de uma pessoa que aparece num álbum de fotografias é extensível a todas as identificações feitas a todas as pessoas que estão nesse álbum".
Na tarde do seu primeiro dia de alegações - conta usar ainda o primeiro dia do recomeço do julgamento, a 05 de Janeiro - o advogado ocupou o tempo a desacreditar os factos que a acusação deu como provados em relação seu cliente.
"O que interessa é o que está demonstrado ou o que hipoteticamente podia ter acontecido?", interrogou-se o defensor do ex-provedor adjunto da Casa Pia, a quem o Ministério Público já deu como provados 16 crimes (15 de abuso de pessoa internada e um de peculato de uso) dos 51 que constam da pronúncia.
Referiu-se ainda a ausência de factos a provarem que os sete arguidos se conheciam, mantinham contactos entre si e participaram juntos em encontros sexuais com crianças casapianas, sublinhando que a "única prova" que sustenta a acusação "são os depoimentos dos assistentes [vítimas]", que considerou repletas de "contradições e inverosimilhanças".
Chegou mesmo a dizer que nestas circunstâncias não é possível defender ninguém e ironizou com a possibilidade de "mudar de profissão".
No fim da sessão, Manuel Abrantes corroborou os argumentos de Sá e Cunha, reiterando que quando esteve preso no âmbito deste processo estava disponível para se submeter a um teste de polígrafo ("máquina da verdade") e reforçando que até se submeteria a "injecções e todas as drogas cientificamente asseguradas" que pudessem atestar que fala verdade, embora tais provas não sejam admitidas pela Lei portuguesa.
Além de Abrantes, são arguidos no processo o ex-motorista da Casa Pia Carlos Silvino, o apresentador de televisão Carlos Cruz, o embaixador Jorge Ritto, o advogado Hugo Marçal, o médico Ferreira Diniz e Gertrudes Nunes, dona da Casa de Elvas onde alegadamente ocorreram abusos sexuais de jovens casapianos.