Desnutrição associada à doença atinge cerca de 115 mil doentes

Desnutrição associada à doença atinge cerca de 115 mil doentes

Cerca de 115 mil doentes apresentam problemas de desnutrição associados à doença, mas os hospitais apenas rastreiam três em cada dez internados, alertou hoje uma associação da área da nutrição clínica.

Lusa / Adicionar como fonte informativa
Rachel Mestre Mesquita - RTP

"Estima-se que cerca de 1% da população nacional - estamos a falar de 115 mil doentes - possa eventualmente estar com problemas de nutrição associados à doença", adiantou à Lusa o secretário-geral da Associação Nacional da Indústria de Alimentação Infantil e Nutrição Entérica e Parentérica (ANID).

A associação realiza hoje, em Lisboa, o Fórum Nacional da Nutrição Clínica, que vai reunir especialistas, decisores públicos, profissionais de saúde, doentes e entidades reguladoras para debater o impacto da nova comparticipação da nutrição entérica e os desafios que persistem no acesso do doente.

As estimativas apontam para que os rastreios da desnutrição associada à doença abranjam apenas 31% dos doentes internados nos hospitais, referiu Pedro Queiroz, para quem esses diagnósticos têm de ser feitos em contexto hospitalar para permitir uma intervenção imediata.

"O que nós entendemos é que o primeiro grande passo é aumentar os rastreios para, efetivamente, identificar a necessidade e depois melhorar a acessibilidade" à nutrição clínica, referiu o secretário-geral da ANID.

Em causa está uma terapêutica essencial que deve ser integrada no tratamento de várias doenças, como as inflamatórias intestinais, oncológicas, neurológicas, insuficiências orgânicas e pós cirurgia, realça a associação.

Uma intervenção nutricional adequada reduz complicações, diminui tempo de internamento, melhora prognósticos, aumenta a qualidade de vida e previne mortalidade evitável, acrescenta.

Os doentes que precisam de suporte alimentar com recurso a nutrição clínica dispõem, desde o início deste ano, de uma comparticipação do Estado de 69% para a nutrição entérica, que passará para os 90% no próximo ano.

"Este primeiro passo de comparticipação que o Governo português deu nós naturalmente consideramos bastante positivo", adiantou Pedro Queiroz, mas alertou que "há um passo fundamental a dar no futuro", que passa por incluir também os suplementos nutricionais orais.

Segundo referiu, a portaria do Governo sobre a nutrição entérica já prevê que esses suplementos venham a ser comparticipados, mas apenas em 15% do seu valor numa primeira fase e ainda sem data prevista para entrar em vigor.

Para a ANID, a inclusão futura dos suplementos nutricionais orais neste regime excecional de comparticipação da nutrição entérica, com uma comparticipação de 15%, constitui uma "medida de política de saúde, mas dificilmente garante, por si só, uma verdadeira acessibilidade para os doentes que necessitam destas terapêuticas".

Segundo o secretário-geral da associação, a comparticipação dos suplementos nutricionais orais deveria evoluir de forma faseada para chegar aos 90% previstos para a nutrição entérica, um método clínico de alimentação, por via oral ou por sonda, utilizado para suprir as necessidades nutricionais de um doente.

Outra dificuldade diz respeito ao acesso à nutrição clínica por parte dos doentes que regressam a casa, após o internamento, com a ANID a salientar que esses utentes, muitos deles em situação de fragilidade, doença crónica, incapacidade funcional ou pediatria complexa, "necessitam de terapêuticas nutricionais que não podem ser interrompidas".

"A transição do hospital para o domicílio exige coordenação entre equipas, planos nutricionais claros, formação para cuidadores, monitorização regular e acesso garantido aos produtos prescritos. Quando estes elementos falham, o doente fica desprotegido num momento particularmente vulnerável", salientou o secretário-geral da associação.

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