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Despesa com obesidade "é um assalto tremendo às contas do Estado e por isso os medicamentos são um investimento essencial para a saúde"
"Se temos uma arma vital de combate à obesidade, não a podemos ter só para quem tem condições económicas e não ter para quem não tem essas capacidades económicas".
Fotografia: Andreia Brito
Eddy Francisco Martins defende o acesso equitativo a estes medicamentos e "quando falamos de alteração estrutural do sistema de saúde, falamos da comparticipação dos fármacos", acrescenta. "Se temos uma arma vital de combate à obesudade não a podemos ter só para quem tem condições económicas e não ter para quem não tem capacidades económicas", conclui.
Na opinião de Adriana Lages os mais recentes medicamentos têm o reverso da moeda: "temos muita automedicação, muitas estratégias erradas e farmácos em pessoas que não têm os pilares de tratamento ajustados". A médica especialista em endocrinologia e nutrição e membro da direção da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo defende o uso destes medicamentos, mas destaca que a publicidade referente a dietas e que usa "a expressão «emagrecimento fácil e rápido» começa logo de forma errada".
Os novos medicamentos são para Maria João Gregório novas abordagens para tratar o problema da obesidade e do excesso de peso. A diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção-Geral da Saúde (DGS) defende aliás que "a obesidade é um problema de saúde pública que afeta um número significativo da população portuguesa, o que mostra que temos de responder com tratamentos, mas também temos de ter uma capacidade forte de apostar na prevenção".
A responsável da DGS alerta para o facto de "as crianças estão cada vez mais expostas a um ambiente digital pouquissimo controlado" e revela que "grande parte das infrações à lei, cerca de 80% acontecem no ambiente digital, e isso signifca que temos pouca capacidade e instrumentos para regular e a implementação da lei".
O presidente da Associação Portuguesa Contra a Obesidade Infantil avisa que "as crianças têm menos discernimento e não conseguem deixar de se levar pela influência que têm as redes sociais". Mário Silva lamenta: "o tempo passa e elas não estão a ter acesso a todas as ferramentas de combate à obesidade". "Não podemos continuar a deixar pessoas para trás e a discriminar", reclama.
"A obesidade infantil tem vindo a aumentar e temos valores algo preocupantes sobre a inatividade fisica", refere Nuno Fialho. O vice-presidente do Conselho Nacional de Associações de Profissionais de Educação Física e Desporto lamenta que "num mundo cada vez mais digitalizado os miúdos têm cada vez menos vontade de se mexer".
Dietas da moda, suplementos e promessas de transformações rápidas estão cada vez mais presentes nas redes sociais e chegam todos os dias aos ecrãs dos mais jovens. Mas até que ponto estes conteúdos influenciam os hábitos de alimentação e exercício físico? A jornalista Tatiana Felício falou com jovens para perceber os desafios de viver na era dos "influencers". Cristina Padez não tem dúvida: "chegámos a estes valores de obesidade porque tivemos uma indústria alimentar cujo único objetivo é o lucro e não há regulação". Para a professora de Antropologia e investigadora na Universidade de Coimbra "o grande problema é o açúcar adicionado. Isso é um veneno" e isso tem levado a alterações: "o nosso organismo, do ponto de vista biológico, está muito desajustado com a realidade atual".
O Consulta Pública contou com o testemunho na primeira pessoa de Joana Ferreira Duarte. É autora da página Perna Fina e viveu durante décadas entre dietas e um distúrbio alimentar. "A questão emocional é durissima porque quem lida com a obesidade lida com uma enorme vergonha daquilo que é ser gordo", desabafa. E explica que "isso acarreta despesas com consultas de psicologia que para a maior parte das pessoas não é comportável".
"Perdemos o peso, mas não mudamos a cabeça e não conseguimos reconhecer aquele corpo como nosso", partilha no programa da Antena 1.
É por isso que Eva Conceição defende que "não há uma obesidade, há obesidades". A psicóloga clínica, que é também membro da direção da Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade, refere que "comer por questões emocionais não é exclusivo dos obesos e pode não ser um problema". Porquê? Porque "admitir que pode ser uma experiência normal ajuda as pessoas com excesso de peso a não se sentirem culpadas". O programa Consulta Pública é moderado pelo jornalista Frederico Moreno.