Dez mil biólogos, a maioria no ensino e no sector público
Portugal tem dez mil biólogos, 90 por cento dos quais a trabalhar no ensino e no serviço público, porque o sector privado não dá resposta a esta formação, revela um estudo inédito hoje apresentado.
Denominado "Biologia e Biólogos em Portugal. Ensino, Emprego e Relação com a Sociedade", o estudo é o primeiro a nível nacional sobre a inserção profissional e social dos biólogos.
De acordo com José Guerreiro, bastonário da Ordem dos Biólogos, no país "existem dez mil licenciados em biologia, metade dos quais formados no último quinquénio".
"A biologia está na moda", afirmou, acrescentando que cada vez mais jovens optam por esta formação, sobretudo com o objectivo de aplicação nas áreas do ambiente e da genética.
"Actualmente estão a formar-se por ano em biologia cerca de 750 alunos", sublinhou José Guerreiro.
O problema - segundo o bastonário - consiste em "dar resposta a estas formações e criar novos postos de trabalho".
De acordo com José Guerreiro, o estudo veio revelar que 50 por cento dos dez mil licenciados em biologia estão a trabalhar no ensino e que dos outros 50 por cento, a grande maioria está em serviços públicos.
Estes biólogos trabalham sobretudo nas áreas do ambiente e da saúde, nomeadamente em laboratórios de reprodução medicamente assistida, de análises forenses e de genética.
Na opinião de José Guerreiro, o principal problema consiste em dar resposta a estas formações e criar novos postos de trabalho no sector privado.
"A taxa de emprego de biólogos no sector privado é muito residual, ronda apenas os quatro a cinco por cento", lamentou.
Estes valores não apontam necessariamente para uma grande taxa de desemprego, já que esta se situa nos cinco por cento.
Outros dados do estudo apresentado hoje referiam-se à situação sócio-profissional dos biólogos em Portugal entre 1999 e 2004".
Assim, a investigação revelou "taxas elevadas de feminização" em biologia, indicando que "as mulheres estão claramente em maioria", segundo Filipe Oliveira, investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES), do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).
Esta é também uma área com elevada taxa de pós-graduações, quer mestrados, quer doutoramentos, embora aqui sejam os homens a manter a liderança.
"Os homens têm mais facilidade em atingir graus mais elevados do que as mulheres" e apresentam "vínculos de trabalho mais estáveis" do que os verificados no sexo feminino, afirmou Filipe Oliveira, reconhecendo que este foi um dos resultados do estudo que mais o "surpreendeu".
Outra conclusão apresentada neste trabalho foi que "a maioria dos biólogos desempenha actividades compatíveis com a formação que obtiveram, nomeadamente investigação".
No entanto, ressalta a "pouca expressão" do emprego em empresas privadas e do trabalho liberal, nesta área da biologia.
Relativamente às percepções que os jovens do secundário têm da biologia, João Freire, professor do ISCTE e responsável pela supervisão do estudo, destacou a apetência dos alunos desse nível para as questões da ciência da vida, para os problemas ambientais e éticos da ciência e da biologia.
"Esta apetência aparece com suficiente relevo quer nas práticas quer nas preocupações dos jovens, mais naqueles já inseridos nos grupos de ciências naturais (comparativamente à economia, artes ou humanidades", explicou.
João Freire confessou-se surpreendido com uma conclusão do estudo que não esperava: "não há uma diferença significativa entre escolas no que respeita à sua localização geográfica".
Segundo indicou, foi inquirida uma escola de cada concelho do distrito de Lisboa e não foram encontrados eixos/zonas geográficas com diferenças significativas conforme o tipo de actividades, de nível de escolaridade e cultural das classes populacionais residentes nessas áreas geográficas.
"Isto faz supor que há maior homogeneidade na forma como os jovens apreendem os problemas que são transmitidos pela imprensa e pelas escolas", afirmou, acrescentando que "o factor de origem social de inserção geográfica parece negligenciável".
Quanto à questão do emprego, João Freire considera que "começa a ser percebida pelos jovens de maneira realista".
No entanto, considera que na procura dessa via de ensino e de formação pesa "menos a expectativa do emprego do que a imagem que fazem do que é a actividade do biólogo, que é marcada por duas referências: o "biólogo de bata" (que trabalha em laboratório) e o "biólogo de botas" (que trabalha no campo).
"Estas são duas imagens ainda bastante fortes na atractividade que exerce" o trabalho do biólogo sobre os jovens, sublinhou.
Para este estudo sobre a percepção da biologia pelos estudantes do secundário, foram realizados mais de mil e cem inquéritos a alunos, aplicados nas escolas pelos docentes, explicou.
Este estudo inovador em Portugal resultou de um acordo entre o Observatório Biologia e Sociedade e o ISCTE, tendo sido financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, tutelada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
O estudo decorreu entre 2002 e 2005 por Maria de Lurdes Rodrigues - actual ministra da Educação - até à altura da sua nomeação.
Presente na cerimónia de apresentação do estudo, Maria de Lurdes Rodrigues sublinhou a "atitude reflexiva da Ordem dos biólogos", com a realização deste estudo, e a sua "preocupação com a construção do futuro".
AL.
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