Dez por cento da população de Lisboa nos sec. XVI e XVII era africana

Os africanos constituíam cerca de dez por cento da população de Lisboa nos séculos XVI e XVII, mais de o dobro da percentagem actual, conclui o investigador francês Jean-Yves Loude num livro que será lançado hoje.

Agência LUSA /

"A presença africana em Lisboa começou no século XV com a chegada dos primeiros escravos e nos séculos XVI e XVII a capital portuguesa contava já com cerca de 10 por cento de negros", disse à agencia Lusa o autor de "Lisboa - Na Cidade Negra".

"Em Lisboa, há uma presença africana invisível do passado e uma presença visível do presente através dos imigrantes", realçou o escritor e etnólogo francês.

"Lisboa - Na Cidade Negra", que hoje é lançado no Instituto Franco-Português", surgiu devido ao interesse que o autor tem por África, especialmente por Cabo-Verde.

Depois de escrever "Cabo-Verde: Notas Atlânticas" em 1999, Jean Yvez Loude considerou importante deslocar-se a Lisboa devido ao grande número de cabo-verdianos que residem na capital portuguesa.

"Como sou interessado por Cabo-Verde achei que era importante vir a Lisboa para fazer mais pesquisas. Passei muito tempo com as gentes de Cabo-Verde", disse, adiantando que encontrou "uma grande visibilidade de África em Lisboa", onde moram angolanos, moçambicanos, guineenses e são-tomenses, além dos cabo-verdianos.

Nesta estada de cerca de três anos em Lisboa, o escritor francês descobriu a realidade de hoje (presença de imigrantes dos Países Africanos de Língua Portuguesa), mas também encontrou uma presença africana muita forte nos séculos XVI e XVII.

O autor lamentou que os professores não ensinem na escola esta presença africana em Portugal e na Europa, uma vez que existem muitas pesquisas sobre o assunto.

Nesta sua viagem por Lisboa, o francês descobriu no Cais do Sodré, Rossio, Praça do Município, Graça e Alfama uma presença antiga dos africanos.

Esta presença está "em qualquer lugar da cidade", na rua, nas casas, no chão, referiu Jean-Yves Loude ao destacar que os africanos contribuíram para a construção da cidade de Lisboa através do seu trabalho.

"É uma investigação quase policial para encontrar todas as provas da presença antiga dos africanos na vida quotidiana de Lisboa", sublinhou ao acrescentar que "essa presença não é conhecida para a maioria dos portugueses".

O livro mostra igualmente "o olhar dos africanos sobre a Europa", nomeadamente a impressão que os imigrantes oriundos desse continente têm de Lisboa quando chegam.

O autor contactou com africanos que residem nos bairros periféricos e com as mais várias profissões, além de participar nas festas.

Desse convívio, Jean-Yves Loude apercebeu-se dos problemas de integração, dos "fortes problemas das segundas gerações" e da vida "em silêncio" de muitos imigrantes.

"Hoje em dia o homem africano trabalha nas obras e a mulher em casa. São uma presença silenciosa. É difícil encontrar um africano num local de destaque", disse à Lusa ao homenagear o trabalho dos africanos.

"Os nomes dos africanos que trabalham nas obras devem ser escritos nas paredes e nos muros das novas construções de Lisboa como um genérico de um filme para guardar memória de toda a gente que dá o sangue e às vezes a vida na beleza da construção da cidade", comentou.

De acordo com o autor, o livro, publicado há dois anos em França, é muitas vezes utilizado pelos franceses quando visitam Lisboa como guia turístico.

Mas considera que o seu livro "não é um guia", mas "um romance que faz uma leitura diferente de Lisboa, que mostra uma cidade atrás das fachadas e que visita lugares com uma realidade escondida".

"Lisboa - Na Cidade Negra" é uma trilogia que começou no Mali no tempo dos descobrimentos portugueses, passando depois por Cabo- Verde e terminando em Lisboa.

Mas o interesse de Jean-Yvez Loude por Africa não termina e pelo que revelou à Lusa, pretende escrever um outro livro sobre a mesma temática, desta vez acerca de São Tomé e Príncipe.

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