Dirigente do SNESup alerta para aumento de vagas por ocupar nas universidades do Interior

Teresa Alpuim, professora do departamento de Estatística e Investigação Operacional da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e membro da direcção do Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup), contraria a euforia com o crescimento no número de alunos que nesta primeira fase de acesso ao ensino superior foram colocados em universidades e politécnicos do Interior do país, alertando para uma conta que não pode ser ignorada nessas instituições: tudo aumentou, o número de vagas, os alunos colocados, mas também o número de vagas que não foram ocupadas pelos candidatos.

Paulo Alexandre Amaral - RTP /
DR

O novo quadro para o ensino académico em Portugal começou a ser desenhado em Maio, com um despacho que previa para este ano uma redução de 5% das vagas nas instituições de Lisboa e Porto. Uma medida do Governo que tem como objetivo fazer com que mais alunos se inscrevam em estabelecimentos de Ensino Superior localizados fora das grandes cidades.

Mas, para Teresa Alpuim, do SNESup, a leitura da estatística deveria alertar as equipas do Ministério das Ciências e do Ensino Superior para a estratégia escolhida neste caminho de dispersão académica pelo território nacional. A dirigente sindical estima que afastar os alunos dos grandes centros urbanos por obrigação não terá produzido os resultados desejados pelo Executivo.

Feitas as contas, Teresa Alpuim sublinha que o aumento de vagas no Interior resultou no ingresso de mais estudantes nessas universidades e politécnicos, mas com um efeito colateral: produziu igualmente um forte aumento de vagas sobrantes.
Mais umas centenas de vagas por ocupar

Considerando como grandes os centros universitários de Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro e Minho, a dirigente do SNESup estima que as vagas não ocupadas nas universidades do Interior tenham aumentado de 14,7% em 2017 para 17,17% este ano. De acordo com as contas do sindicato, em 2017 haveria nessas universidades 6369 vagas, das quais sobraram 934, enquanto que em 2018 o número de vagas seria de 6699, para ficarem por ocupar 1150. Aumentam de facto as vagas em 330 lugares e também assim o número de alunos colocados, mas crescem também os lugares por ocupar.

A situação, sublinha Teresa Alpuim, é ainda mais nítida nos politécnicos do Interior, com o número de vagas sobrantes a crescer quase três pontos percentuais, de 24,33% em 2017 para 27,15% em 2018.

Face aos números, Teresa Alpuim sublinha a discordância das políticas do Governo face a uma estratégia que falhou ao “obrigar universidades a diminuir vagas com o argumento de manter as pessoas a estudar no Interior”.

“Se querem desenvolver as universidades e politécnicos [do Interior do país] devem melhorar as condições relativamente às propinas e à acção social”, defende esta sindicalista, já que “o aumento de vagas não teve como consequência o correspondente aumento de estudantes admitidos”.

“O número de estudantes admitidos em todo o Sistema de Ensino Superior sofreu uma variação negativa de 2%, ou seja, este ano, foram admitidos menos 2% dos estudantes que foram admitidos em 2017. No entanto, o número total de vagas foi sensivelmente o mesmo, de modo que a medida para 'ajudar' o Interior, reduzindo em 5% as vagas das Universidades de Lisboa e Porto, traduziu-se numa perda de estudantes para o ensino superior, já que as Universidades do interior só tiveram uma variação de admitidos de mais 2,5% e o politécnico uma variação negativa de -2,3%. E repare-se que, em valores absolutos, 2,5% em pequenas universidades representa um número muito inferior de alunos do que 2,5% de novos estudantes das universidades de Lisboa e Porto”, conclui a dirigente do SNESup.
Estratégia de cortes é para prosseguir

A medida do Governo tem como objetivo fazer com que mais alunos se inscrevam em estabelecimentos de Ensino Superior que estejam localizados fora das grandes cidades.

O corte nas vagas abrange nove instituições: Universidade de Lisboa, Universidade Nova de Lisboa, ISCTE, Instituto Politécnico de Lisboa e Porto, Universidade do Porto, Escolas Superiores de Enfermagem de Porto e Lisboa e Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril.

Um corte, referia na altura o ministro da Ciência e do Ensino Superior, Manuel Heitor, que apenas fazia sentido se esta fosse uma linha política a continuar: "Durante o próximo ano devem ser estudadas as medidas dos institutos politécnicos para que se possa adotar uma evolução ainda mais radical de maior reforço para o interior do país".

"Este processo só faz sentido se for plurianual e de uma forma crescente porque naturalmente a evolução da última década foi de uma crescente concentração de estudantes de formação inicial em Lisboa e no Porto", explicava o ministro em maio em declarações recolhidas pela TSF.
PUB