Dispositivo português para ajudar pessoas com demência finalista de prémio de um milhão de libras

Dispositivo português para ajudar pessoas com demência finalista de prémio de um milhão de libras

Um projeto português de um dispositivo para ajudar pessoas que vivem com demência a manter a sua independência é um dos cinco finalistas do Prémio Longitude Demência no valor de 1,15 milhões de euros.

Lusa /

"O Autonomous (Autónomo) é um sistema de sensores que pode ser posicionado em diferentes locais da casa de uma pessoa para a ajudar a manter a sua independência após o diagnóstico de demência, preservando a rotina e a confiança" e "mantendo o controlo", explicaram os investigadores da Associação Fraunhofer Portugal Research e coordenadores do projeto Ricardo Graça e Ana Vasconcelos em declarações à agência Lusa por correio eletrónico.

O sistema utiliza inteligência artificial e inclui um pequeno computador - que fica na casa do utilizador para proteger a sua privacidade -, ligado a câmaras e microfones e a um "smartwatch" utilizado pela pessoa com demência, que a lembra das suas rotinas e de verificar, por exemplo, se deixou o fogão ligado e uma torneira ou o frigorífico abertos.

Para os investigadores, os principais benefícios incluem o bem-estar emocional, aumento da autoestima, estímulo mental, saúde física e a ligação social, já que vivendo na sua casa os doentes podem continuar "na sua comunidade local, mantendo ligações com amigos e vizinhos".

Desenvolvido por uma equipa do centro de investigação aplicada Associação Fraunhofer Portugal Research, no Porto, em parceria com a Universidade Carnegie Mellon (Estados Unidos) e a LUCA School of Arts (Bélgica), o projeto Autonomous contou ainda com a participação de pessoas que vivem com demência, "um requisito fundamental" do prémio.

"Desenvolvemos o Autonomous em conjunto com pessoas com demência, familiares e cuidadores em três países (Portugal, Bélgica e Itália), envolvendo mais de 150 pessoas", incluindo "81 pessoas com demência, 28 cuidadores dedicados e 34 profissionais de saúde", indicaram os cientistas à Lusa.

Acrescentaram que o dispositivo foi testado em casa de doentes e que "os testes-piloto confirmaram uma perceção geral positiva e uma elevada utilidade, validada pelo pedido de três participantes para continuar a utilizar a solução após a conclusão do estudo".

Ricardo Graça e Ana Vasconcelos disseram ainda que passarão "o próximo ano a fazer os ajustes finais necessários" para preparar o modelo "para o mundo real" e que não pretendem patenteá-lo.

"Estamos a torná-la de código aberto porque acreditamos que deve servir a comunidade e permitir a melhoria coletiva nos cuidados à demência", acrescentaram.

Em termos de comercialização, indicaram estar "focados no licenciamento da tecnologia a instituições que oferecem apoio domiciliário a pessoas com demência", considerando que "estas organizações são os parceiros ideais", tendo em conta que "os custos de produção são atualmente elevados".

"No entanto, o nosso objetivo a longo prazo é continuar a reduzir o preço para que, eventualmente, o possamos tornar amplamente disponível e acessível para uso doméstico pelas famílias".

O projeto português foi escolhido em 2024 para a final do Prémio Longitude Demência, juntamente com outros quatro (dois do Reino Unido, um dos Estados Unidos e outro da Austrália), de um grupo global de 24 semifinalistas.

Cada um dos finalistas recebeu 300.000 libras (345.000 euros) para desenvolver as suas ideias e criar "soluções práticas, concebidas especificamente para pessoas que vivem com demência".

O objetivo deste prémio é promover "a criação de ferramentas personalizadas baseadas em tecnologia, cocriadas com pessoas que vivem na fase inicial da demência, ajudando-as a viver de forma independente durante mais tempo".

Financiado pela organização de solidariedade britânica Alzheimer`s Society e pela agência de inovação do Reino Unido Innovate UK, o prémio é atribuído pela Challenge Works e será anunciado numa cerimónia no Museu do Design de Londres em março.

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