Embora o foco do laboratório continue a ser civil, os projetos em preparação na área da deteção e localização de sinais de radiofrequência poderão abrir portas a aplicações de uso dual, com interesse para a segurança nacional e para a defesa europeia.
João Paulo Monteiro, um dos coordenadores e investigador à frente do IST NanoSatLab, questionado sobre a crescente importância do espaço no atual contexto geopolítico, é claro na resposta: "Sim, definitivamente."
Muito embora este laboratório universitário não desenvolva projetos especificamente orientados para fins militares, o investigador reconhece que o espaço é hoje uma das áreas onde as chamadas tecnologias de uso dual assumem maior relevância.
"O principal fim que nós temos é civil, mas hoje em dia os satélites, ou a arena do espaço, digamos assim, é particularmente importante para o conceito de uso dual."
Segundo o investigador, estas tecnologias podem servir simultaneamente necessidades civis e militares, dependendo do contexto em que são utilizadas.
"Tecnologias que podem ser úteis tanto no campo militar como no campo civil. O espaço é talvez a principal arena."
"Tecnologias que podem ser úteis tanto no campo militar como no campo civil. O espaço é talvez a principal arena."
Em entrevista ao site da RTP Notícias, o investigador do IST deu a saber que a equipa que trabalha neste proto laboratório industrial está a preparar uma missão que permitirá identificar sinais emitidos a partir da superfície terrestre e localizar a sua origem.
"Estamos neste momento a começar a trabalhar numa missão para fazer identificação de sinais emitidos a partir de transmissores na Terra, sejam eles quais forem."
Trata-se de uma abordagem diferente daquela que habitualmente associamos aos satélites, ou seja, em vez de se procurar localizar um satélite a partir da Terra, o objetivo passa por ser o satélite a antecipar essa informação e a identificar a origem de emissões de rádio produzidas à superfície.
"Uma vez lá em cima, não existe bem o conceito de isto é militar e não podemos ver, isto é civil e podemos ver. Nós vemos tudo", sublinha João Paulo Monteiro.
A aplicação prática deste tipo de tecnologia estende-se muito para além da investigação académica.
Uma das possibilidades passa pela deteção e localização de emissores de interferência contra sinais de navegação por satélite, conhecidos como sistemas de empastelamento ou jamming.
"Na prática, o que isso quer dizer é, por exemplo, termos um sistema que consiga detetar de onde vêm os sinais de empastelamento de GNSS", um sistema que se utiliza para quebrar comunicações, sinais de GPS ou mesmo aparelhos autodirigidos como os drones.
Mas as capacidades em estudo pelos investigadores do ISTSatLab pretendem ir mais longe, como por exemplo de “detetar radares."
A identificação e georreferenciação de fontes de emissão eletromagnética constitui atualmente uma área crítica tanto para a segurança civil como para as operações militares. A proliferação de sistemas de interferência eletrónica observada em vários cenários de conflito aumentou a necessidade de desenvolver mecanismos de deteção rápidos e autónomos.
O desafio, explica João Paulo Monteiro, é particularmente exigente do ponto de vista tecnológico, exigindo algoritmos sofisticados capazes de determinar a origem precisa de sinais captados a partir de órbita.
Embora ainda numa fase preliminar, o trabalho desenvolvido pelo laboratório começa a despertar interesse fora do meio académico.
"Já há contactos informais por parte de alguns agentes das Forças Armadas portuguesas. Mas ainda não encontrámos um programa de financiamento que seja realmente direcionado para aquilo que nós queremos fazer."
Um avanço que se deseja, mas que está depende da identificação de instrumentos de financiamento adequados.
Mas para o responsável do NanoSatLab, seria redutor olhar para estas capacidades apenas numa perspetiva militar.
Portugal possui uma das maiores áreas marítimas da Europa, distribuída por milhares de quilómetros quadrados de oceano, cuja monitorização continua a representar um desafio significativo.
E porque não são só os estrategas militares a ter interesse em olhar lá de cima, “importa dizer que isto não é apenas militar", sublinha o investigador do IST e aponta como exemplo o controlo de fronteiras e a vigilância de vastas áreas oceânicas.
"Portugal tem uma área geográfica gigantesca, se contarmos com o Oceano Atlântico”, sendo esta a terceira maior Zona Económica Exclusiva da Europa. “E por ser gigantesca e remota, é difícil de rastrear por meios tradicionais."
Apesar de ser um laboratório relativamente recente, o investigador no Instituto de Sistemas e Robótica (ISR Lisboa) e um dos coordenadores do ISTSatLab, considera que os resultados já alcançados demonstram a capacidade nacional para desenvolver tecnologia espacial avançada.
O exemplo mais visível foi o ISTSat-1, o primeiro satélite universitário português, mas existem outros casos concretos de transferência tecnológica para a indústria.
"Leva tecnologia do IST e do NanoSatLab, nomeadamente as antenas para detetar os sinais dos barcos, que foram desenvolvidas pelo NanoSatLab e estão no espaço a funcionar."
Na perspetiva do investigador, a conclusão é clara: "Temos as capacidades técnicas para desenvolver sistemas para o espaço."
E quando questionado sobre a possibilidade de o ensino superior português contribuir para reforçar a autonomia tecnológica nacional na área da defesa, a resposta surge sem hesitações: "Sim, não vejo nenhum motivo para que isso não aconteça."
Nesta entrevista dada ao online da RTP Noticias, é clara mensagem deixada por João Paulo Machado: o trabalho desenvolvido no IST NanoSatLab continua ancorado na investigação científica e na inovação civil, mas as competências adquiridas ao longo dos últimos anos colocam o laboratório numa posição privilegiada para participar em futuros projetos ligados à segurança, vigilância marítima e defesa.
À medida que o espaço se afirma como um domínio estratégico para as nações, tecnologias capazes de localizar sinais, monitorizar atividades eletrónicas e operar a partir de pequenos satélites podem tornar-se ativos valiosos para a soberania tecnológica portuguesa.