Doentes bipolares têm maior risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis
Um especialista em Doença Bipolar alertou hoje para o facto destes doentes correrem maior risco de contrair doenças sexualmente transmissíveis porque uma das manifestações da doença é uma "sexualidade impulsiva", o que dificulta a prevenção.
"No doente bipolar há uma sexualidade excessiva que, ao contrário do qu e se imagina, é uma sexualidade distorcida que acontece sempre e não está necess ariamente relacionada apenas com as fases de euforia", explicou à agência Lusa o especialista brasileiro Olavo Pinto, responsável por um curso sobre sexualidade em doentes bipolares integrado no XI Simpósio da Doença Bipolar, que hoje termi na em Lisboa.
"Há nestes doentes um maior risco de contrair doenças sexualmente trans missíveis, porque não conseguem raciocinar nem resistir ao impulso imediato", al ertou, defendendo ser importante que o paciente seja equilibrado e tratado de fo rma a ter comportamentos sexuais saudáveis.
A Doença Bipolar, tradicionalmente designada por maníaco-depressiva, é uma doença psiquiátrica caracterizada por variações acentuadas do humor na mesma pessoa, com crises repetidas de depressão e de euforia, com repercussão nas sen sações, emoções, ideias e no comportamento, com uma perda importante da saúde e da autonomia da personalidade.
O Simpósio reúne diversos especialistas nacionais e internacionais para debater os aspectos que interferem directamente com a vida quotidiana de um doe nte bipolar, nomeadamente o impacto da doença na vida familiar, na afectividade e na sexualidade.
Olavo Pinto explicou que "enquanto nos casos de unipolaridade ou vulgar depressão as pessoas não pensam muito em sexo, no doente bipolar, até nas fases de depressão, o doente diz não ter vontade de tomar banho, nem de comer, mas pe nsar em sexo o tempo todo".
"A vida sexual dos pacientes bipolares costuma ser mais intensa ou dife rente da das pessoas comuns, ainda que às vezes isso apenas aconteça na cabeça d eles", disse, salientando que devido a este comportamento obsessivo, a vida fami liar é afectada, registando-se um alto índice de separações e uma preponderância de bipolares em grupos de troca de casais, por exemplo.
"Principalmente nos quadros mais exaltados da doença o comportamento de stes pacientes chega a ir contra os princípios e valores da própria pessoa, porq ue a doença tem a ver com experimentar sensações excessivas e nestes casos não h á nada mais excitante do que o sexo", explicou.
"O tratamento deste quadro não significa um fechamento ou uma ausência de sexualidade, porque o que este paciente quer é uma sexualidade plena e total, que mantenha a sua integridade física, e o médico tem de o ensinar a lidar com isto de forma consciente, sem uma visão castradora ou moralista, para evitar ris cos quer para o doente quer para os familiares", concluiu.
Em Portugal, estima-se que um por cento da população seja bipolar de ti po 1 (forma mais grave) e cerca de seis por cento bipolar de tipo 2 (forma menos grave).
"São pessoas que sofrem e que fazem sofrer muito quem lhes está próximo , porque são muito instáveis, têm crises que as levam a modificar os seus afecto s e a relação com os outros, dificuldades de adaptação ao trabalho e ao dia-a-di a", referiu à Lusa Maria Luísa Figueira, directora do serviço de Psiquiatria do Hospital de Santa Maria e presidente do Simpósio, realçando que há também quem t enha um temperamento bipolar mas sem atingir os parâmetros da doença.
Segundo Maria Luísa Figueira, "a principal dificuldade destes doentes é manter um tratamento ao longo da vida, que tem como objectivo estabilizar a pes soa e evitar crises de euforia ou depressão graves".
Um tratamento passa por manter a pessoa controlada e tem de ser feito n uma colaboração com o doente, a família e o médico, pois "estes pacientes tendem a abandonar os tratamentos, principalmente nos momentos de grande euforia, por se sentirem tão bem que consideram que já não precisam".
"Estes doentes têm períodos intermédios sem sintomas, muito longos, e é aqui que podemos educar o doente e a família para evitar crises longas", disse, salientando que o importante é que o tratamento seja personalizado e que se ens ine o doente e a família a reconhecer as situações que desencadeiam as crises em cada caso específico.