Dois cardeais portugueses no Conclave

Dois cardeais portugueses - D. José Policarpo e D. Saraiva Martins - participam no conclave que vai eleger o sucessor do Papa João Paulo II, a partir de segunda-feira, em Roma, e ambos podem ser escolhidos:

Agência LUSA /

D.JOSÉ POLICARPO, O CARDEAL QUE SONHOU SER APENAS UM PADRE DE ALDEIA D. José da Cruz Policarpo queria ser prior de aldeia, mas o seu destino teve outro rumo e ele acabou por ascender a líder máximo da Igreja Católica portuguesa.

Reservado, inteligente e observador, assim o descreve a família mais próxima, os seus oito irmãos. D. José Policarpo sentiu o apelo da Igreja quando fez a primeira comunhão, aos sete anos.

A sua inteligência brilhante foi notada tanto pelo cardeal Manuel Cerejeira como por António Ribeiro, a quem haveria de suceder como Patriarca de Lisboa, em 1998.

Desde há alguns anos, diversa imprensa internacional tem vindo a colocá-lo na lista dos "papabili" para suceder a João Paulo II, destacando as suas qualidades intelectuais e a moderação das suas posições.

A seu favor tem também o facto de ser um dos bispos mais antigos, e contar com o apoio da comunidade de Santo Egídio, um grupo maioritariamente católico com influência no Vaticano. É fluente em francês e italiano e domina razoavelmente o espanhol e o inglês.

Por outro lado, contra si pode pesar a pouca experiência pastoral (nunca teve uma paróquia própria) e ser um fumador inveterado desde os 30 anos, hábito apontado com um impedimento para chegar a Papa, por ser mal visto na Igreja Católica.

José da Cruz Policarpo nasceu no pequeno lugar de Pego, freguesia de Alvorninha, concelho de Caldas da Rainha, a 26 de Fevereiro de 1936, filho de agricultores que produziam cereais, vinho, azeite e fruta.

Apesar da família não ser muito abastada, o pai fez questão de mandar estudar os filhos na universidade, e José, devido à referência de um tio materno que estudou no seminário dos Salesianos, acabou por entrar no Seminário de Santarém com a recomendação do prior da sua aldeia.

Estudou ainda no Seminário de Almada, cursou Filosofia e Teologia no Seminário Maior de Cristo-Rei, em Lisboa, entre 1955 e 1961, e em Agosto desse ano foi ordenado presbítero pelo cardeal Cerejeira.

O patriarca de Lisboa viu nele enormes potencialidades, mandando-o para o Seminário de Penafirme, onde se manteve cinco anos e ali acabou por ficar como professor, prefeito e director.

Ao fim desse período foi enviado para Roma para estudar Teologia Dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Escreveu uma tese de curso intitulada "Teologias da Religiões não Cristãs", regressando depois a Lisboa, sendo nomeado, em 1970, reitor do Seminário dos Olivais. Tornou-se também professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP).

Profundamente tocado pelo Vaticano II, aberto ao mundo e à cultura, defendeu uma tese de doutoramento em Teologia subordinada ao tema "Sinais dos tempos - génese histórica e interpretação", inspirada na Constituição Gaudium et Spes.

O seu percurso passa a ficar muito ligado ao Seminário dos Olivais e à UCP, marcando o seu currículo de forma importante.

Em 1978 é ordenado bispo pelo cardeal António Ribeiro na Igreja dos Jerónimos e nomeado bispo auxiliar de Lisboa com o título de Caliábria, mantendo a docência e responsabilidades de direcção na universidade, onde ocupa o cargo de reitor entre 1988 e 1996.

No ano seguinte, a 04 de Março, é nomeado coadjutor patriarcal, tornando-se patriarca em 24 de Março de 1998 na sequência da morte do cardeal Ribeiro.

Em 2001 foi nomeado cardeal pelo Vaticano.

AG.

D.JOSE SARAIVA MENDES, O CARDEAL FAZEDOR DE SANTOS E BEATOS O único português a ocupar até hoje um lugar na Cúria Romana, grupo de instituições que auxiliam o Papa no governo da Igreja Católica, D. José Saraiva Martins já avaliou milhares de processos de beatificação e canonização.

A vocação para padre surgiu-lhe aos 11 anos, levando-o, com mais dois irmãos, ao seminário de Alpendurada, em Macedo de Cavaleiros e depois para o dos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia.

Nessa altura, D. José nem vislumbrava que um dia lhe passariam pelas mãos as propostas para beatificar ou santificar dois dos três pastorinhos de Fátima, Jacinta e Francisco Marto, adorados anualmente no santuário por milhões de devotos.

Em apenas sete anos, "fez" 758 beatos e santos, e tem proposto anualmente a beatificação de portugueses, a última foi Alexandrina Maria da Costa, uma vidente do Porto, que deverá juntar-se à freira portuguesa Rita Almada de Jesus, fundadora de um instituto religioso em Ribafeita, beatificada o ano passado.

Quando, no Vaticano, em 2001, recebeu o barrete cardinalício ao mesmo tempo que D. José da Cruz Policarpo, apelidaram-no de "cardeal do sorriso" pela sua constante e contagiante boa disposição.

Nas horas de lazer é apreciador de literatura, nomeadamente de Fernando Pessoa, música clássica e futebol.

D. José Policarpo tem sido mais mencionado nas listas dos "papabili" (candidatos a papa), mas D. José Saraiva Martins é um dos poucos cardeais indicados pelo diário italiano "La Republica".

Nascido a 06 de Janeiro de 1932 em Gagos de Jarmelo, concelho da Guarda, formou-se na Congregação dos Padres Claretianos, e em 1953 foi para Roma onde se doutorou em Teologia e em Filosofia, ordenando- se sacerdote em 1957.

Foi professor catedrático na Pontifícia Universidade Urbania durante vinte anos, dos quais 12 como reitor, antes de ser nomeado pelo Papa como secretário da Congregação da Educação Cristã, onde unificou a investigação e o ensino da teologia nas universidades católicas.

No exercício desse cargo viajou pelo mundo fiscalizando o funcionamento de seminários, e chegou a encerrar alguns, como foi o caso de um seminário de Vila da Fábrica, na diocese de Recife, Brasil, forçado a fechar por falta de condições.

Das muitas viagens que fez guarda uma recordação especial: Um dia, no aeroporto de Hong Kong, com o cartão de embarque na mão e prestes a partir para a Europa, sem saber explicar as razões, decide não embarcar.

O avião caiu e não houve sobreviventes. Na Europa chegaram a rezar-lhe pela alma. Quando lhe pedem para recordar a premonição diz simplesmente: "Não tinha chegado ainda o meu tempo".

Cedo se revelou um estudante trabalhador e disciplinado, respeitado pelos pares pelo seu nível intelectual e profundos conhecimentos no campo da colegialidade episcopal.

É em 1988 que chega ao cargo de prefeito para a Congregação da Causa dos Santos, onde foi responsável por cerca de um terço das mais de mil canonizações e beatificações realizadas durante o pontificado de João Paulo II, nomeadamente o fundador da Opus Dei, José Maria Escrivã.

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