Domingo de Ramos só é "dia grande" para vendedoras de flores nos cemitérios

Braga, 12 abr (Lusa) - O Domingo de Ramos é o "Natal" para as tradicionais floristas, mas a crise alterou o paradigma. Compram-se "vasos raquíticos" nas grandes superfícies e o "negócio das pétalas" só compensa a quem vende flores à porta dos cemitérios.

Lusa /

Segundo os evangelhos cristãos, no domingo antes do Domingo de Páscoa assinala-se o Domingos de Ramos, celebrando-se, assim, a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém, dias antes de morrer, para depois ressuscitar. A tradição impõe que neste dia os padrinhos em batismos cristãos sejam presenteados com ramos ou flores pelos afilhados, aludindo ao relato de que à entrada do Nazareno na cidade santa a população deu-lhe as boas vindas atirando-lhe folhas de palmeira à sua passagem.

Para quem vende flores, esta "sempre foi" a época do ano mais "movimentada e com mais clientela". No entanto, segundo as seis floristas, em Braga e Guimarães, que a Lusa contactou, o negócio "já teve dias mais cheirosos", antes da "maldita" crise.

"O Domingo de Ramos era o nosso Natal. Na sexta e sábado, antes vendíamos mais do que em dois meses com a porta aberta. Agora as flores murcham à espera do cliente que já não vem", afirmou Maria do Carmo, florista em Braga "vai para lá" de 10 anos.

Para Sílvia Gonçalves, que abriu a florista em 2011, o "negócio gordo" do Domingo de Ramos "é como que um mito".

"Eu ouvia falar que era uma boa época para se vender arranjos. Mas a verdade é que não dei por isso. Talvez porque quando abri a florista já estávamos em crise", explanou.

Antonina Pinto tem uma pequena florista no centro histórico de Guimarães há 15 anos. "Ainda consegui amealhar uns cobres com a loja. Agora tenho a porta aberta mais por teimosia do que por lucro", explicou.

Para esta florista, tal como para as outras com que a Lusa falou, "o dinheiro é curto e as pessoas aproveitam os vasos raquíticos nos supermercados, juntam umas amêndoas e ficam os padrinhos aviados".

"Já não se oferecem grandes ramos, com flores especiais, onde mostrávamos a nossa arte", lamentou Maria do Carmo.

"Isto das flores só está bom para quem faz negócio nos cemitérios", apontou Antonina, enquanto podava um ramo "fresquinho" de rosas brancas.

Carla vende flores à porta do cemitério de Braga. Não se queixa do negócio.

"Não estou rica. Mas mesmo quando não se tem muito dinheiro sempre se arranja para uma florsita na campa de alguém que já não a vai cheirar", riu.

Esta vendedora de flores, que recusa denominar-se florista, confirma que a Páscoa trouxe uma "nova oportunidade" para o negócio.

"É verdade sim senhora. Já demos conta disso no ano passado. Na sexta, antes do dia dos padrinhos, tivémos muita procura. E vimos pouca gente a entrar no cemitério. Entre as queixas de que as flores estão caras, disseram-nos que não estavam a comprar para os mortos, mas para fazer ramos em casa e oferecer do Domingo de Ramos", confirmou.

"Arranjos não fazemos", avisou. "Hoje [sábado antes do Domingo de Ramos], já me perguntaram uma carrada de vezes se fazia arranjos", disse, explicando o aviso.

"Para quem tem porta aberta entendo que [o facto de] comprarem flores aqui é chato. Mas também é bom vender uma flor de vez em quando para que alguém a cheire. A clientela lá de dentro não é muito dada a isso", brincou, referindo-se aos mortos.

Tópicos
PUB