"Doulas" humanizam parto na era da industrialização do nascimento
São mães que ajudam outras mães a gerir o turbilhão de emoções da gravidez, do parto e do pós-parto. Não praticam actos médicos, mas dão muito mais do que apoio emocional:
chamam-se "doulas" e ajudam a humanizar o nascimento.
Carmen Duarte entrou num hospital lisboeta para ter o primeiro filho acompanhada da sua "doula" e foi bombardeada com perguntas sobre aquela mulher, que ela queria ter ao seu lado na hora do parto, juntamente com o marido.
"Foi uma pequena polémica, eu estava com dores e ainda tinha que responder às perguntas das enfermeiras sobre quem é e o que faz a doula", contou à Lusa Carmen Duarte, 31 anos, que recorreu aos serviços desta profissional antes e após o nascimento do primeiro filho.
Inseridas num movimento de humanização do parto, estas "mulheres que servem", segundo a origem grega da palavra "doula", começaram a apoiar grávidas há 30 anos, nos Estados Unidos.
"A `doula` é uma mulher que já teve filhos, que tem uma grande intuição e, apoiada em provas científicas, oferece um apoio sobretudo emocional", explicou Luísa Condeça, que, com a amiga Carla Guiomar, se tornou a primeira doula portuguesa.
Perante a vontade do marido de estar presente no momento do nascimento, Carmen Duarte abdicou da presença da "doula", porque o hospital não foi receptivo à presença de duas pessoas exteriores à equipa médica na sala de partos.
"No próximo filho, vou exigir a presença dela. Acredito que nessa altura [esta actividade] já seja vista de outra forma pelo hospital", afirmou.
As Doulas de Portugal nasceram oficialmente como associação em 2005, depois de Luísa Condeço e Carla Guiomar terem recebido formação em Londres com um dos mentores do movimento, o médico-obstetra Michel Odent.
Existem 25 doulas em Portugal e outras tantas em vias de receber a certificação da associação.
Baseadas em estudos "que provam que a vida intra-uterina e a forma como se nasce desempenham um papel essencial na saúde", as doulas tentam combater a "industrialização do nascimento", prestando apoio personalizado às mulheres.
Num cenário de "conforto térmico, diminuição de luz, diminuição da linguagem, privacidade e segurança", o trabalho de parto decorrerá melhor e o parto será uma "experiência positiva" para a mulher e a criança, preconizam.
As "doulas" não rejeitam o nascimento em meio hospitalar, o recurso à epidural ou o parto por cesariana, mas defendem que a mulher deve tomar essas decisões "em consciência".
"Não impomos nada, ao contrário do que muitas pessoas pensam, mas achamos que uma mulher deve saber todas as implicações de uma epidural, o que na maioria dos casos não acontece", disse Luísa Condeço.
A primeira tarefa de uma doula é "reduzir a ansiedade" e convencer a mulher da "capacidade inata que tem para amar e parir os seus filhos".
Quando em 1999 teve o primeiro filho, Luísa Condeça tinha lido "todos os livros e todas as revistas" sobre o assunto e, apesar desse manancial de informação e de ter feito a preparação segundo o método psico-profilático do parto sem dor, "as coisas não correram bem".
"Toda a informação que eu tinha avidamente consumido estava baseada em mitos, em tradições ou em procedimentos hospitalares que se fazem por mera rotina", contou.
A posição convencional do parto - deitada de costas, com as pernas afastadas colocadas nos estribos - "só favorece a equipa médica, que fica com um palco para trabalhar, mas não é a mais conveniente para a mulher", exemplificou Luísa Condeço.
"Quando podem escolher, poucas são as mulheres que têm filhos nessa posição", disse, defendendo que há um maior conforto e facilidade em dar à luz de cócoras ou deitada de lado.
Por outro lado, a preparação segundo o método psico- profilático, que nos anos 1960 começou a libertar as mulheres da dor e dos mitos associados ao parto, a tradutora de livros infantis de Évora considera que peca por ser "um método, aplicado de forma generalizada a todas as mulheres".
"As mulheres são todas diferentes", lembrou.
Antes do parto, "doula" e grávida encontram-se semanal ou mensalmente, conforme a altura da gestação em que a iniciam o contacto.
O custo dos serviços de uma "doula" varia muito, segundo Luísa Condeço, que cobra 150 euros pelo acompanhamento de um parto, o que inclui um ou dois encontros prévios e apoio antes, durante e até três horas depois do nascimento.
Por duas horas semanais durante um mês, as grávidas que recorrem a Luísa Condeço pagam 90 euros.
"É um apoio emocional muito grande. Quando colocamos as dúvidas aos médicos eles relativizam tudo, se falamos com as amigas elas assustam-nos com as dores que tiveram. A `doula` explica a importância da dor, acalma, prepara-nos", disse Carmen Duarte.
Apesar de a sua "doula" não ter assistido ao parto, a presença na sala de espera do hospital deu um "apoio indirecto" a Carmen, ao acalmar o marido e os futuros avós, na sala de espera.
Para Carmen, a "doula" dá o "apoio emocional imparcial" que o marido e os pais, preocupados, não conseguem e que médicos e enfermeiros, "por muito que tentem, não conseguem transmitir no meio de toda aquela azáfama".
"Tive muita pena de não a ter ao pé de mim na altura do parto, mas lembrei-me muito das suas palavras. Esteve comigo em espírito", recordou.
Carmen beneficiou também das "massagens de relaxamento" que o marido aprendeu com a doula e que depois, "um pouco nervoso", tentou aplicar.
"As dores foram secundárias, o pior é mesmo sentir falta de apoio emocional", explicou Carmen que ficou surpreendida com um clima de alguma "agressividade" no hospital.
"Pensei que já não se gritasse com as grávidas, que já não se tomassem determinadas atitudes", desabafou.
Após o nascimento do Alexandre, actualmente com 10 meses, o apoio da "doula" voltou a fazer a diferença, sobretudo na amamentação.
"Eu tinha muitas dúvidas em relação à amamentação, que para mim era uma questão muito importante, e ela ajudou-me muito", lembrou.
Carmen considera que a "ajuda preciosa" da doula contribuiu para uma gravidez feliz que resultou num "bebé muito calmo e sereno".