É falso que o agrupamento de escolas do Pinhal Novo cancelou as celebrações de Natal devido aos imigrantes

Não há registo de celebrações de Natal canceladas no agrupamento de escolas do Pinhal Novo, como afirmou o candidato presidencial André Ventura. As escolas celebraram o Natal normalmente, embora tenham feito as fotos escolares sem cenários natalícios.

Lusa /

+++ Alegação: "Escola do Pinhal Novo cancelou celebrações de Natal" +++

No debate entre os 11 candidatos à Presidência da República, realizado na RTP a 6 de janeiro, o candidato André Ventura voltou a afirmar que "o Pinhal Novo foi uma das muitas escolas do país que cancelou celebrações de Natal para não ofender imigrantes" e questionou que se "cancelem celebrações de natal, fotografias de Natal, porque os imigrantes islâmicos não gostam" (https://archive.ph/rMOvC).

A mesma denúncia já tinha sido feita a 6 de dezembro através de publicações nas redes sociais do líder do Chega, onde afirmava que "muitas escolas estão a eliminar os cenários de Natal nas fotografias para não `incomodar` as minorias que não gostam e não celebram o Natal" (https://archive.ph/9nmwl), numa alusão a uma alegada decisão do Agrupamento de Escolas José Maria dos Santos, do Pinhal Novo (https://archive.ph/BmuXs).

André Ventura voltou a referir-se ao caso a 15 de dezembro, reforçando a acusação. "Tenho visto em imensas escolas, mas uma que me chocou, que foi a do Pinhal Novo - vou dizer aqui o nome porque se quiserem desmentir-me poderão desmentir-me -, dizer que cancelou fotografias de Natal com as crianças e eventos de Natal com as crianças para não ofender os imigrantes não católicos ou não-cristãos que estão em Portugal e para ser mais inclusivo." (https://archive.ph/YKf4H).

+++ Factos: As fotos escolares foram feitas sem cenários natalícios, mas não foram canceladas celebrações ou eventos dedicados à quadra +++

Uma consulta à página do agrupamento no Facebook revela vários eventos que celebraram a quadra, como a participação na iniciativa Natal na Vila (https://archive.ph/mca4d), promovida pela autarquia, ou a decoração das escolas com árvores de natal e presépios (https://archive.ph/HqdBv e https://archive.ph/7AUUv).

Na Escola Básica (EB) dos 2.º e 3.º Ciclos José Maria dos Santos, a maior do agrupamento, realizou-se pelo sexto ano a exposição de presépios produzidos pelos alunos da disciplina de Educação Moral e Religiosa Católica, uma iniciativa destinada à "valorização da tradição do presépio, do património cultural e religioso, incentivando simultaneamente o envolvimento das famílias", explica o jornal escolar: https://archive.ph/6HDya.

Noutra escola do mesmo agrupamento, a EB Alberto Valente, também é facilmente verificável que a própria a associação de pais promoveu uma oficina de duendes do Pai Natal (https://archive.ph/9dlOh), cujos trabalhos realizados por alunos e famílias foram posteriormente exibidos nesse estabelecimento: https://archive.ph/v1qfU.

No entanto, também foi possível confirmar que pelo menos esta escola terá feito as fotos escolares deste ano letivo sem decorações natalícias, como afirmou Ventura. Nas redes ainda circula uma resposta da direção do agrupamento a uma encarregada de educação, onde se explica que "a decisão de não utilizar cenários natalícios procurou respeitar toda a comunidade escolar, reconhecendo tanto as famílias que celebram o Natal como aquelas que, por diferentes motivos culturais, religiosos ou pessoais, não o assinalam."

Nessa mensagem, a diretora, Maria Pena, explica que "optou-se por um cenário neutro precisamente para garantir que todos os alunos pudessem participar em igualdade, sem deixar de valorizar as tradições que são significativas para muitas famílias", mas salienta que "o valor afetivo da imagem mantém-se, mesmo sem elementos especificamente alusivos ao Natal."

Contudo, a docente salienta que "independentemente do cenário, a fotografia escolar permanece sempre uma memória importante para as famílias - um registo do crescimento, da etapa escolar e do momento vivido pelo aluno" e manifesta disponibilidade para reembolsar a encarregada de educação caso pretenda devolver as fotografias, lê-se na cópia da resposta partilhada nas redes por uma deputada do Chega (https://archive.ph/1HNXq).

+++ Contraditório: "Nada foi cancelado ou escondido e o Natal celebrou-se normalmente" +++

A Lusa Verifica tentou obter esclarecimentos da direção do agrupamento, mas a diretora, Maria Pena, respondeu apenas que "não tem qualquer comentário" a fazer sobre o assunto.

Por seu lado, o gabinete de comunicação do Chega não esclareceu se o candidato André Ventura tem conhecimento do cancelamento de outros eventos ou celebrações dedicadas à quadra natalícia nestas ou noutras escolas.

No entanto, foi possível falar com a presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação (APEE) da EB Alberto Valente, que assegurou que, "ao contrário das insinuações que circulam nas redes e de algum aproveitamento político, nada foi cancelado ou escondido e o Natal celebrou-se normalmente como todos os anos, com escolas enfeitadas, festas de Natal, troca de presentes, participação no Natal da Vila e concurso de presépios".

Quanto às fotografias escolares, Mafalda Matos explica que "foram tiradas maioritariamente em novembro, embora em alguns casos tenham sido feitas já no início de dezembro, mas o agrupamento nunca disse aos pais que seriam fotos com cenários natalícios. Essa era uma expectativa por parte dos pais".

A presidente desta APEE também admite que nem sempre as fotos escolares têm esses cenários. "Em 2024, por exemplo, as escolas optaram por cenários de inverno, mas sem árvores de natal ou enfeites, e numa das escolas a foto de grupo foi tirada nas escadas que ainda tinham em fundo o cenário do Halloween", conta.

Apesar disso, diz perceber o incómodo de alguns pais. "No caso da minha filha até foi usado um fundo rosa sem qualquer decoração, mas para mim não faz diferença porque não deixa de ser uma recordação. Mas percebo as críticas de alguns pais, embora não subscreva nem concorde com o tom que a discussão assumiu nas redes sociais".

Na origem da polémica considera ter estado a "má comunicação por parte da direção do agrupamento, que podia ter esclarecido o que pretendia fazer neste ano letivo, porque eventualmente houve famílias desiludidas por não terem uma foto relacionada com a quadra para oferecer aos avós, por exemplo".

Explica ainda que a APEE optou por não se pronunciar até agora porque o tema "não merece tanto alarido" e afirma que "a justificação da diretora foi infeliz ao trazer o tema da inclusão, porque não há problemas de inclusão naquelas escolas". "Aliás, nem acredito que tenha sido aquele o motivo, porque não faz sentido. Por alguma razão, a direção e os professores escolheram aqueles cenários e, depois da polémica, a diretora saiu-se com aquela explicação infeliz", acrescenta Mafalda Matos.

+++ Avaliação Lusa Verifica: Falso, mas +++

É falso que foram canceladas celebrações de Natal no Agrupamento de Escolas José Maria dos Santos, no Pinhal Novo, porque a quadra foi assinalada normalmente com festas, presépios e decorações natalícias em todas as escolas, mas é verdade que as fotos escolares, realizadas maioritariamente em novembro, não tiveram motivos alusivos ao Natal apesar de alguns pais terem essa expetativa.

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