Em Oleiros caminhos limpos e carrinhas defendem floresta desordenada

Carrinhas todo-o-terreno com depósitos de 500 litros de água, máquinas de rasto e caminhos limpos é a receita que Oleiros aplica este ano para defender o concelho contra o fogo, apesar do desordenamento existente.

Agência LUSA /

Dois anos depois dos grandes incêndios que destruíram 60 por cento do município, alguns pinheiros adultos, isolados, em encostas verdes de mato rasteiro sem sinais de ordenamento marcam a paisagem de Oleiros.

"Quando quiser ver por onde o fogo andou é olhar para o mato.

Se estiver apenas um pinheiro de pé, com aspecto velho, é porque o +diabo+ deu cabo do resto", explicou Manuel Bernardo, de 84 anos, residente em Povoinha, terra onde os incêndios "destruíram tudo o que havia para destruir".

Dois anos depois, o plano de prevenção de incêndios ainda quase não saiu do papel, confirmou José Marques, presidente da Câmara de Oleiros, que não se quer resignar com a tragédia passada, que destruiu 25 mil hectares em 2003.

"Falta ordenar a floresta que está a nascer por regeneração espontânea", afirmou, criticando a falta de apoio estatal para investir neste sector.

Em causa está a criação de uma rede primária de protecção contra incêndios, que ordene a floresta, com a ampliação de charcas e aceiros e plantação de outras espécies, não resinosas, que impeçam a progressão das chamas.

No caso de Oleiros, teve de ser a própria autarquia a comprar um veículo para transporte de máquinas de rasto e a custear a instalação de pequenos depósitos em carrinhas todo-o-terreno das freguesias para apoiar a primeira intervenção.

Para o autarca de Oleiros, a solução não pode ser apenas comprar mais carros para os bombeiros mas investir no ordenamento e no trabalho das máquinas de rasto, para rasgar um perímetro de segurança em torno das chamas.

"Os fogos não se combatem com água mas com máquinas", afirmou, mostrando-se particularmente preocupado com os prejuízos causados pelos fogos de 2003, que destruíram a floresta de uma forma nunca vista.

Equipas de vigilância mais presentes e o alargamento dos postos de vigilância são outras das soluções encontradas para prevenir os fogos, nomeadamente nas poucas zonas com árvores adultas.

Para preparar a próxima época de fogos, a autarquia investiu em dez novas carrinhas, uma para cada freguesia com maiores riscos, que terão equipas permanentes para ir aos locais onde for detectado o primeiro foco de incêndio.

"As chamas matam-se à nascença, não é depois de crescerem para frentes incontroláveis", explicou o autarca, salientando que a dispersão do concelho e a alta de acessibilidades dificulta a prontidão dos bombeiros, que também viram os seus meios reforçados.

O plano global de prevenção e combate dos fogos "está todo bem desenhado no papel mas falta pô-lo em prática", reconheceu o autarca, salientando que os esforços das associações de produtores e das autarquias não é suficiente para o implementar.

"Se o Estado não der o exemplo, e não tem dado, os privados não vão fazer nada e fica tudo na mesma", desabafou, mostrando-se preocupado com o futuro do interior do país.

Na sua opinião, depois dos incêndios de 2003, Portugal "teve uma oportunidade de ouro" para realizar investimentos prioritários nos concelhos do interior porque a "opinião pública estava sensibilizada" para os problemas existentes.

Depois do impacto mediático das chamas, a "moda passou" e as pessoas esqueceram de novo os concelhos mais atingidos pelas chamas que estão a "lutar contra a desertificação e o abandono".

"As árvores são o petróleo da nossa região", considerou o autarca, recordando que muitos proprietários viam nesses terrenos o "pé-de-meia" para mandar os filhos estudar, comprar um carro ou pagar o sinal da casa.

"Agora já não há lá nada", disse, com os olhos ainda humedecidos, Teresa Gonçalves, que viu a casa da sua vida destruída pelo fogo que atingiu a Bafareira.

Junto à porta da nova casa construída na sede de freguesia, Teresa Gonçalves não esconde a saudade do lugar onde sempre viveu mas garante não querer voltar.

"O que eu passei não o desejo a ninguém", afirmou, recordando que perdeu gado diverso e a casa, de dois pisos ficou completamente destruída.

"Toda a gente já se tinha ido embora. Só lá ficámos nós a proteger a casa mas quando o morto (do poço) rebentou já não podíamos fazer nada", sublinha o marido, Manuel Esteves: "Saí de lá sem nada, apenas com uma chave de fendas no bolso para ainda tentar arranjar o motor".

Agora, sentados em frente à casa nova num lugar diferente, os dois querem esquecer esses dias e reconstruir a sua vida a partir do zero - aos 74 anos.

Segundo recordam, o dia 03 de Agosto de 2003 foi "o inferno" e "o fogo saltava centenas de metros para aparecer noutro sítio com mais força".

"E havia mesmo milagres: o fogo saltava contra o vento", recordam.

João Martins é dono de uma serração e secretário da Junta do Estreito, uma das freguesias mais atingidas pelo fogo de 2003, que suspeita de mão criminosa na maior parte dos casos.

"Nunca tinha ardido tanto e há coisas que não se conseguem explicar", afirmou, criticando ainda o facto dos bombeiros não poderem usar o contra-fogo para "segurar os incêndios".

Esta técnica envolve a criação de um fogo junto da zona de progressão do incêndio maior, que depois "morre" nas chamas já controladas pelos bombeiros.

"O fogo não se combate com água, mas com fogo", disse João Martins, criticando ainda a falta de limpeza das ribeiras que pontuam os vales da serra onde Oleiros está encravado.

"Qualquer vale com água é um ponto de defesa natural, mas está tudo cheio de silvas e sujo que não há hipótese de fazer nada", considerou o empresário.

Para João Martins quem ganha com os fogos é quem os combate, porque nem os empresários das serrações nem os donos dos terrenos têm interesse em ver as propriedades destruídas.

"As árvores não dão para tanto e é um crime destruir ramadas tão novas", afirmou, considerando que o Governo deveria assumir para si a gestão dos aviões de combate aos fogos: "uma coisa destas não pode ser entregue a privados que quanto mais trabalharem mais ganham".

Segundo o Relatório Final da Comissão Parlamentar Eventual para os Fogos Florestais/2003, naquele ano, a área ardida em Portugal ascendeu a 423.276 hectares, quatro vezes mais do que a média anual do decénio de 90 e mais do dobro do pior ano até então (1991).

Os fogos causaram 20 mortos, entre os quais quatro bombeiros, e danificaram cerca de 2.500 edifícios, dos quais 2.280 instalações para diversos fins de actividades económicas, causando 400 milhões de euros de prejuízos.

Hoje, quando o Governo antecipa a época de combate aos fogos de 2005, os cidadãos de Oleiros já não estão muito confiantes no futuro e conformam-se ao esquecimento por parte dos políticos, como confessa José Mateus, que viu o fogo a destruir a adega e o curral no lugar Mosteiro.

"Eles só vêm cá quando há eleições ou quando há mortos, depois não ligam. É que, sabe, quando os pinheiros ardem é que se pode fazer promessas. Quando eles crescem, ninguém nota", diz.

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