Embaixada russa recusa vistos ao casal português
A Embaixada da Rússia em Lisboa negou, esta manhã, os vistos ao casal de Barcelos que acolheu Alexandra, a menina russa que foi entregue na passada semana à mãe biológica. A partida da família Pinheiro para Moscovo, onde iam participar num debate televisivo, estava marcada para a tarde de hoje.
"Logo que a Embaixada receber esse convite oficial emite os vistos", acrescentou.
Viagem fica adiada
João Araújo, advogado da família de Barcelos revelou à RTP que com esta recusa da Embaixada russa a passar os vistos a viagem vai ficar adiada.
"Esta viagem vai ficar efectivamente adiada e isto é mais um incidente perfeitamente lamentável", revelou o causídico que acrescentou que ele e os seus constituintes foram "tratados de uma forma perfeitamente desrespeitosa em todo o processo".
"Estava tudo combinado, estava tudo acertado com a televisão russa. A parte logística desta operação nunca foi tratada por nós. Ainda ontem à noite me ligaram a confirmar que estava tudo tratado e pediram-nos para estarmos na Embaixada às 09h30", sublinhou João Araújo.
"Nós fomos convidados, não fomos nós que sugerimos a ida onde quer que fosse. Telefonaram-nos, entraram em contacto connosco, preparam toda a operação, e agora vem esta desculpa".
Segundo o advogado do casal de Barcelos, o próprio Canal 1 "também está surpreendido com a situação" e afirmam "que trataram de todo o processo".
Casal ia estar com a criança no programa
O convite do programa de televisão do Canal 1, canal público russo, surgiu depois de um outro canal de televisão russo, NTV, ter divulgado imagens de Natália Zarubina, a mãe biológica de Alexandra, a agredir a criança. No programa de televisão do Canal 1 além do casal Pinheiro, também estaria presente a menina de seis anos, bem como a mãe biológica e o advogado do casal português.
Na reportagem, divulgada pelo canal NTV, vê-se Natália Zarubina a dar algumas palmadas no rabo da filha, que queria ir para junto da irmã mais velha, e a criticar a educação recebida por Alexandra em Portugal.
Valéria, a irmã mais velha da menina, tem 15 anos e foi criada na Rússia pela avó.
Alexandra, de seis anos, estava à guarda do casal de Barcelos há quatro anos. Na passada semana, a criança, que apenas fala português, passou a viver com a mãe e a avó numa cidade russa, a 350 quilómetros de Moscovo. A partida da menina deveu-se a uma decisão judicial do Tribunal de Barcelos que determinou que a menor fosse devolvida à família biológica, apesar dos problemas de alcoolismo que os técnicos referem em Natália Zarubina.
O pai da criança é um imigrante ucraniano que actualmente vive em Espanha.
Lei russa não permite o regresso da criança a Portugal
A legislação russa que impede a entrega de crianças a cidadãos estrangeiros, faz com que menina não possa regressar a Portugal para viver com os pais de acolhimento.
A situação verifica-se mesmo que se confirme que a mãe biológica não tem condições de criar a criança, pois a lei russa privilegia laços familiares em detrimento dos afectivos, mesmo quando são detectados problemas.
Segundo a legislação russa, uma criança só pode ser adoptada por estrangeiros se não existirem candidatos russos a essa adopção.
Evegueny Mouravich esteve junto da família
O correspondente da RTP em Moscovo, Evegueny Mouravich, esteve na aldeia russa, a 350 quilómetros de Moscovo, onde agora vive Alexandra com a mãe, a irmã e os avós maternos e constatou que existe um bom ambiente em volta da criança.
Segundo Evegueny Mouravich, "a mãe Natália não está preocupada com a vinda do casal português" e "em casa parece menos agressiva do que parecia em Portugal e no aeroporto quando chegou" à Rússia.
O correspondente da RTP afirma "que a família materna parece ter dado um bom acolhimento a Natália Zarubina".
Mouravich desvaloriza as palmadas que a criança apanhou da mãe e acrescenta que "na Rússia não significa agressão".
"Os camponeses russos não mimam demais os filhos. Eles tratam assim, com todo o rigor, os filhos e os menores", sublinhou.
Caso está a ter forte repercussão na opinião pública russa
O diário russo Komsomolskai Pravda considera que a chegada da criança à Rússia, que Natália Zarubina apresenta como uma vitória sua sobre a justiça portuguesa, está longe de ser tão brilhante como ela gostaria.
"A mãe de Alexandra apresenta o regresso da filha à Rússia como sua vitória pessoal na luta contra a justiça portuguesa. Mas essa vitória mostrou não ser tão brilhante como desejaria Natália Zarubina", afirmam hoje duas jornalistas do tablóide que estiveram em casa da avó da menina.
Segundo as autoras da reportagem, "a casa é velha, existem pontas de cigarro numa lata de conservas, fumo de tabaco dentro de casa e parentes bêbados ou de ressaca" é esta "a nova infância de Alexandra".
"A criança não compreende russo. Segundo o seu avô, Serguei Nikolaevitch, eles aprenderão mais depressa o português do que a menina aprenderá a grande e poderosa língua russa", avança o jornal que acrescenta que a menina "em Setembro, deve ir para um infantário, mas desconhece-se como irá contactar com as outras crianças".
"Agora, ela brinca apenas com um primo", frisam as repórteres do Komsomolskai Pravda que chamam a atenção para o facto da Alexandra não ter quarto próprio e viver no mesmo quarto que a mãe e avó.