Emigrante admite processar Estado português
Agostinho Alves, que esteve 82 dias detido "injustamente" em Riade, na Arábia Saudita, e em Omã, admitiu hoje que poderá avançar com uma queixa contra o Estado português.
A queixa, disse à Lusa Agostinho Alves, assenta no facto de Portugal o "ter, de facto, extraditado, metendo-o na boca do lobo".
Antes da sua "odisseia", ocorrida entre Março e Junho de 2006, Agostinho Alves, natural de Subportela, Viana do Castelo, transpirava saúde e corria mundo para trabalhar na sua arte de electricista.
Agora, diz, mal consegue sair de casa e vive "de esmolas", vergado ao peso do "fantasma" dos 82 dias de cárcere.
Os médicos proibiram-no de trabalhar, por causa das fortes marcas psicológicas que resultaram desta situação, passando a ser "cliente" do Rendimento Social de Inserção, que lha dá 600 euros por mês para manter um lar de quatro pessoas, entre as quais duas filhas, de 12 e 14 anos, a frequentar a escola.
"Ainda nem sequer pude pagar os livros de uma delas", confessa, à Lusa.
"Portugal extraditou-me, lançou-me às feras, deixou-me sozinho, entregue à minha sorte. O meu país acabou comigo, arruinou a minha vida. E vai ter que pagar por isso. Sinto dentro de mim um fogo a arder que só se apagará quando pagarem pelo que me fizeram", acrescenta.
Agostinho Alves sustenta que o que o revolta é que, quando embarcou no aeroporto da Portela, os agentes do SEF [Serviço de Estrangeiros e Fronteiras] "já sabiam" o que lhe ia acontecer.
"Viram o meu passaporte, perguntaram-me que crime tinha cometido. Um deles virou-se para o outro e perguntou-lhe o que haviam de fazer comigo. Acabaram por me deixar seguir viagem, para ser detido em Riade", recorda.
Por mais voltas que dê à cabeça, Agostinho Alves não consegue perceber por que razão é que, havendo um mandado de captura internacional, não foi detido logo em Lisboa, no seu país, onde teria outras condições para se defender e se explicar.
"Penso nisto a toda a hora, tento encontrar uma explicação, é uma coisa que não me sai da cabeça", desabafa.
Agostinho Alves foi detido a 23 de Março de 2006, à chegada ao aeroporto de Riade, na Arábia Saudita, na sequência de um mandado de captura emitido pela Interpol.
Tinha sido julgado à revelia em Omã, por alegada falsificação de dólares norte-americanos, e condenado a dois anos e meio de cadeia.
Passou 39 dias numa cela do aeroporto de Riade, sendo depois extraditado para o sultanato de Omã, onde continuou detido, à espera de julgamento.
A 06 de Junho, foi considerado inocente e a 12 desse mês pisava novamente o aeroporto da Portela, em Lisboa, o mesmo local onde começou a sua odisseia.
"Nunca precisei de médico, até ao dia 23 de Março de 2006. A partir daí, tudo mudou. Neste último ano, já consumi mais medicamentos do que durante todos os outros anos da minha vida. Estou proibido de trabalhar, passei a viver de esmolas. Aos 56 anos, recebo o Rendimento Social de Inserção. Tudo por culpa do meu país", acusa.
É com um misto de revolta e de incredulidade que recorda os 39 dias que esteve preso no aeroporto de Riade, "sem nunca ver um único raio de sol".
As celas tinham capacidade para 30 pessoas, mas chegaram a lá estar mais de 70. Era gente de todos os países, de todas as raças, amontoada pelos corredores. Para ir à casa de banho, tinham que passar uns por cima dos outros.
"Tal e qual como no holocausto", diz.
Depois, foi extraditado para Omã, para ser julgado, onde esteve igualmente em total isolamento.
"Mas aí sempre conseguia ver o sol, através das grades", refere.
Agostinho Alves acabou por conseguir provar a sua inocência e regressou a casa, mas trouxe com ele na bagagem um "fantasma" de que não se consegue livrar.
Outrora homem sempre cheio de energia, Agostinho Alves passa hoje os dias, pacatamente, pela sua aldeia, apanhando ar fresco, olhando para a natureza, apreciando os animais.
"Os animais, pelo menos, não me enganam", sustenta.