Emigrantes portugueses denunciam terrorista suspeito
Vários emigrantes portugueses residentes na zona de Stockwell, em Londres, reconheceram a fotografia de um dos suspeitos terroristas como sendo um dos seus vizinhos e denunciaram-no à Scotland Yard.
A polícia britânica ainda não confirmou se a pista dada pela comunidade portuguesa é correcta e corresponde a um dos quatro homens suspeitos de ter tentado explodir uma bomba no passado dia 21 de Julho, mas já admitiu que as buscas à morada indicada, realizadas na noite de quarta-feira, estão "directamente relacionadas" com os incidentes das últimas semanas e deram lugar a três detenções.
"Eram todas mulheres e também levaram crianças", garantiu à Lusa Margarida Xavier, a portuguesa que vive por cima do apartamento do suspeito e que foi surpreendida pela "violência" da operação policial que se seguiu à denúncia.
"Nunca na minha vida passei por tanto medo", disse, antes de explicar em detalhe a sequência dos episódios que deixaram dezenas de portugueses em estado de pânico.
"Ia a sair do prédio com o meu filho e duas netas, mas quando chegámos à porta da rua vimos logo a polícia a empurrar um vizinho para o chão e a apontar-lhe um arma. Depois vieram em direcção a nós, deram-nos ordem para voltarmos a entrar enquanto nos apontavam as metralhadoras e gritavam: rápido, rápido! Ficámos cheios de medo e tivemos de voltar para casa a rastejar", explicou.
O relato da portuguesa é corroborado pelo filho, Paulo Xavier, que conhecia o vizinho bem, não só pela convivência no bairro, mas também porque trabalha num centro de emprego do Estado inglês, onde o suspeito ia todos os meses buscar um cheque.
"É um homem normalíssimo e simpático. Usa aquelas vestes muçulmanas, mas como aqui há gente de todos os sítios e religiões, não era nada de estranhar", disse Paulo, que foi um dos portugueses que telefonou para o número da brigada anti-terrorista da polícia britânica assim que viu a imagem do suspeito na televisão.
"Não tenho a menor dúvida de que era ele naquela fotografia que a polícia mostrou do autocarro", assegurou este emigrante, que entrou "quase em estado de choque" quando viu o vizinho associado ao caso.
Para Margarida, que prefere não falar em concreto sobre o vizinho, o que ficou na memória foi "o pânico" do dia das buscas à casa do vizinho.
"O pânico que vivemos naquele momento, fechados em casa, com um polícia com metralhadora à porta durante duas horas, enquanto nós chorávamos em desespero a pensar que havia uma bomba ao lado de casa", desabafou.
Foi exactamente isso que a polícia disse a Mauro Piva, um brasileiro residente duas portas ao lado da casa revistada, quando bateu à sua porta e gritou "bomba, bomba".
"Apanhámos um susto de morte", contou Mauro à Agência Lusa, enquanto saía de sua casa tentando ultrapassar os muitos cordões de segurança, que o próprio agradece, "para não ser mais massacrado por polícia e jornalistas".
No condomínio de Stockwell, onde decorreram as buscas, vivem entre 30 a 50 famílias de portugueses, facto que se pode facilmente confirmar por dezenas de antenas satélite fixadas nas fachadas com a inscrição legível da televisão por cabo portuguesa.
Uma dessas antenas, colocada no edifício à frente do que era habitado pelo suspeito, identifica a casa de António Reis, outro português, do Funchal, que não estava em casa no momento em que a polícia entrou, mas que seguiu todos os acontecimentos ao telefone com a filha.
"Cheguei a casa pouco depois de começar este aparato todo e eles [a polícia] já tinham fechado quase o bairro todo. Não pude entrar, tive de ficar fora das barreiras, mas pelo telefone a minha filha, que estava em casa e podia ver tudo - apesar de a polícia mandá- la para dentro - ia-me dizendo que via o robot anti-minas da polícia a entrar dentro da casa, depois os cães e os agentes armados", contou.
Tal como muitos outros portugueses que vivem daquela área, a mulher de António, Maria de Fátima, também madeirense, assegurou que todo o aparato das buscas a deixou para sempre inquieta.
"Apesar de viver nesta casa há mais de vinte anos, depois do que se passou aqui e deste clima, que continua em todo o lado, nunca mais vou estar aqui sossegada. Dá muito medo", confessou.