Enforcamento é o método mais utilizado em Portugal, segundo estudo em 16 países europeus

Lisboa, 02 Out (Lusa) - O enforcamento é o método de suicídio mais utilizado em 16 países europeus, incluindo Portugal, representando quase metade do total de casos, revela um estudo concluído este ano a que a Agência Lusa teve hoje acesso.

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Segundo o estudo "Métodos de suicídio na Europa", em que participou o psiquiatra português Ricardo Gusmão, da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa, o enforcamento é o método mais comum entre homens e mulheres, embora seja mais acentuada no sexo masculino a prevalência.

No total dos países que compõem a Aliança Europeia contra a Depressão, 54,3 por cento dos homens que se suicidaram optaram pelo enforcamento, método preferido por 35,6 por cento das mulheres suicidas.

Em Portugal, os números acompanham a média representando 52,3 por cento dos casos de suicídio masculino e 31,5 do feminino.

A Suíça surge como o único país analisado em que o enforcamento surge como segundo método, depois do recurso a armas de fogo.

O estudo indica que o recurso a armas de fogo é a segunda forma mais usada pelos homens para o suicídio, enquanto nas mulheres é a ingestão de medicamentos.

No entanto Portugal é excepção, uma vez que no caso das mulheres, a segunda técnica mais aplicada é o afogamento, factor que pode ser atribuível à dimensão da orla marítima.

O suicídio por consumo de medicamentos pelas mulheres portuguesas é considerado negligenciável, sublinhou à Lusa o psiquiatra português que participou no estudo.

A última opção das mulheres é precisamente as armas de fogo, enquanto nos homens o afogamento é a menos comum.

Este estudo foi realizado com base em mais de 160 mil casos de suicídio entre os anos 2000 e 2005, em 16 países: Portugal, Bélgica, Inglaterra, Estónia, Finlândia, Alemanha, Hungria, Islândia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Escócia, Eslovénia, Espanha e Suiça.

Além do enforcamento, foram identificados como métodos frequentes o recurso a medicamentos, o envenenamento por substâncias, o afogamento, o uso de armas de fogo, o salto de infra-estruturas altas e o atropelamento intencional.

Um outro estudo europeu, publicado em Junho de 2008, mostra também que os jovens da faixa etária dos 15 aos 24 anos preferem o enforcamento.

Esta análise conclui que as mulheres estão associadas a métodos menos letais, enquanto os homens escolhem técnicas mais violentas, cujas consequências são mais eficazes.

Contudo, a diferença de escolha de método entre homens e mulheres não é tão acentuada nos jovens como nos adultos.

Este estudo direccionado para os jovens pretende ajudar na limitação do acesso aos recursos disponíveis, tal como armas de fogo, pesticidas, medicamentos hipnóticos e inalação de gases tóxicos.

O estudo mostra que o método de suicídio mais escolhido, o enforcamento, é o mais difícil de evitar.

A Estónia apresenta a taxa de suicídio mais elevada entre os jovens masculinos dos 15 aos 24, seguida da Finlândia e da Irlanda, enquanto Portugal é o que apresenta a taxa mais baixa.

No que respeita às mulheres, Portugal é novamente o último da lista, liderada pela Finlândia.

Porém, Ricardo Gusmão, que participou nos dois estudos, advertiu que os dados em Portugal estão subavaliados.

"O mau registo do suicídio em Portugal deve-se à subestimação do suicídio e à sobrestimação grosseira das mortes de causa indeterminada, resultado de vários factores culturais e processuais", explicou à agência Lusa o psiquiatra.

A não obrigatoriedade de autópsia psicológica nos casos inicialmente classificados como morte de causa indeterminada e a incapacidade efectiva em determinar o suicídio são duas causas apontadas.

O registo de óbito, muitas vezes passado por qualquer médico e não por aquele que acompanha a pessoa, a par de deficiências no processo de registo, dificulta também a determinação de causa de morte.

Segundo o psiquiatra, há ainda razões de natureza religiosa que levam as comunidades a não admitirem o suicídio.

ARP/SB

Lusa/Fim


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