Entre "simpáticos" e "maldispostos", ainda há quem diga "bom dia" ou "boa tarde" na ponte 25 de Abril

Entre "simpáticos" e "maldispostos", ainda há quem diga "bom dia" ou "boa tarde" na ponte 25 de Abril

Faz sentido falar em horas de ponta na mais movimentada travessia do Rio Tejo? Nos 60 anos da infraestrutura, a supervisora da portagem defende que há certos períodos de mais trânsito, mas no verão "é quase todo o dia". A pressa é uma constante, e a curiosidade já falou mais alto, conta um dos "vizinhos": há uma coletividade que se mudou para junto da ponte 25 de Abril no mesmo ano em que foi inaugurada.

Das paredes espaçosas de uma escola para os pequenos pórticos de uma ponte, a vida de Dina Dalot mudou de rumo em 1995. A Lusoponte ia começar a explorar as portagens da travessia Lisboa - Almada no ano seguinte e era preciso preparar os "portageiros", os trabalhadores que tratam das cobranças na passagem pela ponte.

"As pessoas normalmente vêm cheias de pressas, principalmente de manhã"
, recorda. Os atendimentos mais demorados levam a que os condutores a seguir estivessem mais impacientes: "Quem vinha a seguir perguntava sempre 'Mas o que é que se passou?'"

Durante cerca de um ano e meia, os dias eram passados nos pórticos, tendo sido promovida depois a supervisora num cargo que mantém até hoje. Cerca de duas dezenas de trabalhadores asseguram o funcionamento das portagens - chegaram a ter à volta de 80 "portageiros" - embora também existam passagens com pagamento automático, Via Verde e Via Card.

Agora passa menos vezes pelos pórticos. Entre o que ouve dos colegas e os turnos esporádicos que faz, o humor dos condutores varia. "Às vezes, [as pessoas] vêm mais chateadas de casa", descreve Dina à RTP Antena 1, mas "há pessoas muito simpáticas que chegam ali e dizem 'bom dia' ou 'boa tarde', falam um bocadinho com a colega que está a atender". É um toca e foge no trânsito, onde cada um tem a sua pressa e o seu ritmo. Os "portageiros" são apenas uma parte do dia de alguns. "Há pessoas que são muito simpáticas e depois vem uma ou outra mais maldisposta", resume.
Dina Dalot é supervisora da portagem da Ponte 25 de Abril | Noticiário das 9 horas, 6 agosto 2026
As 16 passagens da Ponte 25 de Abril dividem-se entre diferentes tipos de veículo e formas de pagamento. O seu funcionamento adapta-se também aos acidentes que ali acontecem e na Ponte Vasco da Gama, também gerida pela Lusoponte. A cor vermelha é inimiga dos automobilistas quando olham para as aplicações de trânsito, o mesmo desespero sentido quando ouvem as palavras "trânsito" ou "lentidão" nas rádios.

No verão, "é quase todo o dia hora de ponta", à boleia da malta que vem das praias. Já no inverno, a hora de ponta é "entre as 6h30 e as 10h30, mais ou menos, salvo se houver algum acidente", enquanto no resto do dia "é mais para o final da tarde", descreve Dina.

Os últimos relatórios disponíveis do Instituto de Mobilidade e Transportes (IMT) mostram que o tráfego médio diário tem sido estável, com exceção dos anos da pandemia. A Lusoponte aponta atualmente uma estimativa de cerca de 150 mil veículos.



"Muita gente quase não acreditava" no sucesso da ponte
No sentido Almada - Lisboa, os quilómetros de filas que se geram antes das portagens passam frequentemente a chamada ponte do Pragal. É uma via por onde passam veículos e peões, e que serve de "varanda" da Sociedade Recreativa União Pragalense (SRUP). Esta coletividade anda de mãos dados com a história da ponte e é uma espetadora da sua evolução. A associação foi fundada em 1919, mas mudou-se para as atuais instalações precisamente há 60 anos, no mesmo ano em que a Ponte 25 de Abril foi inaugurada.

"Era uma varanda que estava repleta de gente" no acompanhamento das obras e depois da inauguração, lembra Rui Viana, presidente da Mesa da Assembleia Geral da SRUP. Havia "muitos curiosos para verem o fluxo do trânsito, porque havia muita gente que quase não acreditava como era possível" esta ponte suspensa suportar um tabuleiro de "milhares de toneladas" e "milhares de veículos a atravessarem simultaneamente".
A coletividade de Rui Viana fixou-se junto à ponte no ano em que foi inaugurada | Noticiário das 10 horas, 6 agosto 2026
A sede da coletividade fica a uns metros da "varanda", numa rua com o nome da associação.
A ponte desenvolveu a margem sul do Tejo, considera, e coincidiu "com a construção do estaleiro da Lisnave".

Rui Viana recorda o alargamento das faixas de rodagem na ponte e o início da passagem de comboios na ponte (debaixo do tabuleiro para veículos) como momentos marcantes da evolução da travessia. Mas destaca o "momento triste" do bloqueio da Ponte 25 de Abril em 1994. "A nossa varanda", como descreve, serviu para as pessoas se manifestarem. No dia em que se assinalam 60 anos desta infraestrutura, trouxe à conversa com a RTP Antena 1 palavras de Carlos Figueiredo, amigo de Rui e autor do livro "Pragal no século XX - Memórias e Transformações".
Rui Viana cita uma publicação de Carlos Figueiredo sobre a evolução do tempo na Ponte 25 de Abril
Defende que antes da ponte, apesar das distâncias, "era também um tempo em que as pessoas se conheciam melhor", com a palavra dada de "valor inquestionável" e em que "a solidariedade fazia parte do quotidiano". Numa reflexão sobre a evolução do tempo, "o rio separava margens, mas aproximava as pessoas". Cita ainda: "Ganhámos tempo, conforto e mobilidade, mas talvez tenhamos perdido um pouco daquela proximidade humana que fazia das pequenas comunidades lugares de partilha, entreajuda e pertença".