Escola é o melhor caminho para a integração de ciganos
O presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Carlos Miguel, elegeu hoje a escola como meio privilegiado para a integração dos ciganos na sociedade, defendendo que o Estado deve investir na formação de mediadores.
O autarca, de ascendência cigana por parte do pai, falava num encontro promovido pela Câmara Municipal de Loures designado "O Cigano na Cidade: Percurso e Participação".
"Através da escola, conseguimos a integração dos alunos e dos pais", afirmou Carlos Miguel, considerando fundamental a existência de um mediador cigano na escola.
"Esta figura foi testada, mas nunca se conseguiu um estatuto e à cada vez é mais difícil formar estes mediadores", disse o autarca, sustentando que sem educação não há emprego, pelo que a alternativa ao mercado de trabalho continua a ser a venda ambulante.
A comunidade cigana "deve ser obrigada a ir à escola", acrescentou Carlos Miguel, para quem o Estado deve investir na promoção de actividades culturais, desporto, associativismo, formação profissional e trabalho junto da comunidade cigana.
"O trabalho é um dos factores mais importantes para a integração do cigano", considerou.
"O Estado investiu muito, durante muitos anos, na discriminação dos ciganos, por isso não faz mais do que a sua obrigação em potenciar medidas de integração dos ciganos", referiu Carlos Miguel, que se considera "um aculturado", apesar de ter no pai a "principal referência".
O autarca afirmou que muitas instituições trabalham com a comunidade cigana e que os caminhos para a integração estão há muito traçados, havendo apenas "falta de vontade política" para avançar.
Segundo o vice-presidente da Câmara de Loures, Borges Neves, existem no concelho 1.200 famílias inscritas no Programa Especial de Realojamento que ainda não têm casa, devido às restrições da administração central ao endividamento autárquico.
As famílias ciganas representam 20 por cento deste total, sendo a maioria imigrantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.
Na sequência de um trabalho com vista ao realojamento, a Divisão de Habitação da Câmara de Loures realizou um inquérito junto de um núcleo cigano em São João da Talha, com 294 pessoas, de 56 agregados.
As mulheres representaram a grande maioria dos entrevistados e a faixa etária predominante é dos 25 aos 30.
Quase dois terços têm o primeiro ciclo do ensino básico e cerca de um terço não sabe ler nem escrever.
A maioria destas famílias provém de concelhos limítrofes e sempre viveu em barracas.
Vivem sem saneamento ou esgotos, a água é transportada por mangueiras ligadas a alguns contadores existentes no bairro e a electricidade é "puxada" ilegalmente.
Em termos de alojamento, 56 por cento das habitações é de madeira e as restantes construídas em madeira e tijolo.
Entre 20 barracas, apenas duas têm casa de banho e uma delas serve apenas para tomar banho.
A cozinha é habitualmente improvisada nos alpendres das habitações e as relações de vizinhança são geralmente conflituosas, de acordo com os dados recolhidos pela autarquia.
Os inquiridos manifestaram vontade de ter uma casa na freguesia onde residem e encaram o realojamento como "único factor que falta para melhorarem a sua vida".