Escolas devem ter planos para ajudar alunos sobredotados

A Associação Portuguesa de Crianças Sobredotadas (APCS) alertou para a necessidade de as escolas terem um plano específico de acompanhamento destes alunos de forma a potenciar as suas capacidades excepcionais.

Agência LUSA /

Em Portugal não existem ainda estudos que determinem com precisão o número de crianças e jovens sobredotados sendo assim aplicada uma regra internacional que aponta para a existência de três a cinco por cento de alunos com estas características, o que equivale a 50 mil.

Helena Serra, presidente da associação que sexta-feira comemora os 20 anos de existência, considera que apesar de hoje o tema sobredotação já não ser tabu, a verdade é que muitas destas crianças continuam a passar despercebidas.

A associação fundada em 1986 vai estabelecer um protocolo com Fundação Minerva/Universidade Lusíada para que seja realizado um estudo de campo a nível nacional para determinar o número de crianças e jovens sobredotados em Portugal.

O objectivo é fazer protocolos com outras instituições do ensino superior que tenham departamentos de psicologia.

Os sobredotados, segundo Helena Serra, necessitam de planos individuais de trabalho que estimulem as suas capacidades, evitando assim situações comuns de ruptura com a escola que desencadeiam casos de insucesso escolar e que no limite podem chegar à marginalidade.

Em Novembro de 2005, o Ministério da Educação publicou um despacho normativo que abre o primeiro caminho para o acompanhamento destas crianças e jovens.

O despacho que visa promover o sucesso educativo dos alunos prevê, por exemplo, que sejam feitos planos de desenvolvimento quer para alunos com capacidades excepcionais (onde se enquadram os sobredotados) quer para a resolução de eventuais situações de problemas.

Estes planos de desenvolvimento podem integrar, por exemplo, uma pedagogia diferenciada na sala de aula, programas de tutória para o apoio a estratégias de estudo, orientação e aconselhamento do aluno e actividades de enriquecimento em qualquer momento do ano lectivo.

Quase um ano depois da entrada em vigor desde despacho, Helena Serra diz desconhecer se existe um balanço das actividades desenvolvidas assim como do número de alunos abrangidos por esta possibilidade de acompanhamento.

Helena Serra interroga-se também sobre que profissionais foram colocados à disposição das escolas e o que foi feito em termos de medidas pragmáticas para que estes planos não sejam "letra morta".

"É preciso lembrar que uma coisa é fazer a lei e outra é aplicá-la", disse.

Um aluno sobredotado, explicou, é por norma visto como alguém que possui um conjunto de vincadas características pessoais, entre as quais a percepção e memória elevadas, raciocínio rápido, habilidade para conceptualizar e abstrair, fluência de ideias, flexibilidade de pensamento e originalidade e rapidez na resolução de problemas.

Contudo esta excepcionalidade de competências nem sempre resulta bem por falta de acompanhamento especializado.

"Não tem sido nada inteligente o desinteresse por estas crianças. Estes meninos acarinhados e entusiasmados com hábitos de trabalho serão no futuro indivíduos excepcionais que puxarão o país para a frente", disse.

De acordo com um documento do Ministério da Educação sobre a questão da sobredotação, se estas crianças forem apenas vistas como os alunos que aprendem sempre bem, sejam quais forem as circunstâncias, boas ou más, que compõem o seu ambiente de estudo, não haveria razão para um cuidado particular relativamente à escolarização.

No entanto, a realidade não é esta. Estas crianças experimentam dificuldades várias durante a sua escolaridade, pese embora a relevância das suas qualidades particulares.

Por outro lado, segundo o mesmo documento de 1998 intitulado "Crianças e Jovens sobredotados, intervenção educativa", múltiplos estudos têm demonstrado que existem crianças com potencialidades extraordinárias que passam totalmente despercebidas aos olhos dos professores e que, por vezes, são mesmo identificadas por estes como sendo alunos problemáticos, com dificuldades relacionadas com o seu comportamento nas aulas, atenção, interesse pelas tarefas escolares e desempenho social.

Segundo a presidente da APCS, nos últimos 20 anos a sociedade tem vindo a melhorar: Algumas escolas já procuram ajuda para procurar atender as necessidades destes alunos e estudantes do ensino superior também manifestam interesse pelo tema.

Contudo, adiantou, falta ainda um plano global que inclua o trabalho de profissionais competentes com respostas operacionais no terreno.

Em Portugal, explicou, falta também uma politica de formação de professores nesta área.

Sexta-feira, data em que a associação celebra o 20º aniversário, está marcado um Workshop onde será debatida, por exemplo, a sobredotação na arte, os programas de enriquecimento para alunos sobredotados.

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