Escolas deviam falar mais no Holocausto - comunidade israelita Lisboa
A vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, Ester Mucznik, exortou hoje as escolas portuguesas a falar mais do Holocausto para que os jovens "não esqueçam o horror" das perseguições aos judeus durante a II Guerra Mundial.
"O Holocausto é um património da Humanidade, não tem a ver só com a história dos judeus", disse Ester Mucznik à Agência Lusa, lamentando que o sistema educativo português "pouco fale" no assunto.
Comunidades judaicas de todo o mundo assinalam hoje os 60 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz, na Polónia, onde, desde 1940, o regime nazi assassinou mais de dois milhões de pessoas, na sua maioria judeus.
Ester Mucznik realizou há dois anos um inquérito a mil alunos de cinco escolas públicas portuguesas e concluiu que a maioria dos jovens nada sabia sobre o Holocausto.
"Compreendo que como Portugal não foi ocupado pelos nazis e não participou directamente na guerra, as pessoas não estejam tão sensibilizadas para o assunto, mas deveriam interessar-se mais", defendeu.
Para a vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, é importante evocar os acontecimentos dos campos de extermínio porque "há que educar contra isso, aprender lições com a experiência".
Segundo disse, ao contrário do Colégio de S. João de Brito, em Lisboa, onde falou hoje sobre o Holocausto, poucas escolas portuguesas promovem conferências acerca deste "acontecimento negro da História da Humanidade".
Ester Mucznik não acredita, contudo, que esta falta de sensibilização seja uma manifestação de anti-semitismo, que, na sua opinião, " não se sente em Portugal".
"Não há um grande interesse pela questão, mas também não existe anti-semitismo", um fenómeno, que, pelo contrário, "tem vindo a recrudescer na França, na Alemanha e até na Inglaterra".
Quanto ao sentimento vivido pela comunidade judaica portuguesa nesta data, Ester Mucznik revelou que as pessoas não falam entre si das desgraças porque "é demasiado doloroso".
"Logo a seguir à guerra, e mesmo nos vinte anos imediatos foi muito difícil falar no assunto. Aos sobreviventes custava-lhes falar, preferiam tentar esquecer e continuar as suas vidas. Os outros não queriam ouvir, fosse por ser demasiado chocante ou por lhes pesar na consciência", recordou.
Mas actualmente, considera que já conseguem falar mais nas suas experiências de uma forma natural. O que continua bastante vivo é "um profundo ódio e horror ao nazismo".
Para guardar o testemunho de algumas destas pessoas, ex- refugiados, que residem ainda hoje em Portugal, a vice-presidente da comunidade filmou, há cerca de um ano, várias entrevistas, que depois foram transformadas num documentário.
O documentário será exibido domingo, no Clube Judaico, em Lisboa, no âmbito das iniciativas destinadas a assinalar os 60 anos da libertação de Auschwitz.
Hoje, Ester Mucznik participa no debate "Ninguém testemunha pela testemunha", na Livraria Buchholz, e sábado fará uma intervenção sobre o Holocausto num seminário sobre cripto-judeus, na sinagoga de Lisboa.
Para sexta-feira e sábado estão também previstas cerimónias religiosas alusivas à efeméride.