Especialista defende educação sexual para prevenir Sida e aborto
A educação sexual tem de melhorar em Portugal para combater os "números prementes" do avanço da Sida, aborto e gravidezes adolescentes, defendeu hoje, no Porto, uma responsável da Associação para o Planeamento da Família (APF).
"A situação sanitária em Portugal é muito complicada quanto à Sida e ao aborto, e tem grandes custos sociais. Isso terá inevitavelmente de conduzir à mudança", frisou Manuela Sampaio, presidente da delegação do Norte da APF, na apresentação da II Semana do Esclarecimento Contraceptivo.
A responsável salientou que Portugal "é o segundo dos quinze países que até há pouco constituíam a União Europeia em número de gravidezes adolescentes, somente com a Inglaterra à frente - e só não é o primeiro porque os números subiram na Grã-Bretanha, não por terem diminuído cá".
A solução para estes números elevados passa em parte, segundo Manuela Sampaio, por uma educação sexual mais presente e activa nas escolas portuguesas, depois do "recuo ocorrido nesta área em meados dos anos 90".
Nessa altura, a disciplina de Desenvolvimento Pessoal e Social, que podia ser escolhida em alternativa a Religião e Moral, foi extinta, tendo sido em 2000 substituída pelo actual modelo, de tipo transversal, em que cabe aos professores de todas as disciplinas, de acordo com o esquema por eles determinado, abordar a sexualidade nas aulas.
Manuela Sampaio afirmou que, "teoricamente, este modelo é interessante, mas em termos pragmáticos significa "um recuo em relação ao anterior", uma vez que ninguém é responsabilizado pela promoção ou não da matéria que deve ser dada".
"Num ano este modelo pode funcionar muito bem numa escola, se nela houver um grupo de professores motivado para tratar do tema. Mas no seguinte pode desaparecer de todo se os docentes entretanto mudarem. É um modelo de resultados muito fluidos", afirmou.
O recuo para este modelo resulta, segundo a responsável, de "uma mentalidade política de faz-de-conta. Há manuais escolares, material, acções de formação, protocolos com escolas, mas todos os anos se regressa ao início, dependendo da motivação dos professores de cada escola".
Neste modelo "fluido", as coisas acabam por funcionar devido, diz Manuela Sampaio, à boa vontade dos próprios professores, que têm procurado a AFP para acções sistemáticas ou avulsas.
"Neste momento, a delegação do Norte da AFP tem protocolos para projectos sistemáticos com 80 escolas dos segundo e terceiro ciclos da região, mantendo acções avulsas noutras tantas", afirmou.
A II Semana do Esclarecimento Contraceptivo visa sensibilizar a opinião pública para a necessidade de optar pelo chamado "método dual" de protecção das relações sexuais, com a utilização da pílula para impedir a gravidez e dos preservativos para evitar doenças sexualmente transmissíveis.
Simbolicamente, a Semana foi "alongada", de modo terminar a 01 de Dezembro, Dia de Luta Contra a Sida, dado o simbolismo desta data.