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Especialista diz que foi descurada a conservação do dique do Mondego

Especialista diz que foi descurada a conservação do dique do Mondego

O dique do rio Mondego exige uma observação constante de toda a albufeira e das zonas de degelo da Serra da Estrela, defendeu hoje o engenheiro Carlos Matias Ramos, para quem a monitorização foi "completamente descurada".

Lusa /

"Uma obra destas não pode ser abandonada. O maior risco que se corre é não conhecer o risco", disse à Lusa o ex-bastonário da Ordem dos Engenheiros, alertando para a dimensão e o tipo de estrutura, constituída por diques em aterro ao longo de cerca de 30 quilómetros entre Coimbra e a Figueira da Foz.

Carlos Matias Ramos, que presidiu ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) explicou que um dique como o do Mondego, que colapsou na quarta-feira, é construído sob regras "muito rígidas", tendo em conta, nomeadamente, a natureza do solo, que constitui a fundação.

"Tenho de saber se o solo tem capacidade para receber o peso que vai receber aquele dique. Uma vez concluída a obra, tem de ser fortemente conservada", afirmou.

"É necessária uma observação constante sobre o que se está a passar", reiterou, explicando que a partir dos resultados o projetista reformula a obra ou estabelece um plano para conservação.

Trata-se de uma obra de diques de contenção lateral, que deve ter entre a quota máxima da água (em situação de cheia) e a coroa (topo) uma margem de 40 a 60 centímetros.

"Essa quota pode ser comida se o dique assentar", especificou Carlos Matias Ramos, referindo que durante os primeiros 10 anos após a construção não houve problemas com a obra.

"Era importante que houvesse uma instituição de caráter local para toda a bacia do Mondego, de gestão de todo o sistema", sustentou, exemplificando que devem ser analisados os dados históricos e a monitorização em torno dos diques e da evolução de toda a albufeira.

Para Carlos Matias Ramos, "tudo leva a crer" que as alterações climáticas têm implicações na equação que é preciso analisar no que se refere às fundações do dique.

Neste sentido, apontou a vigilância das zonas de degelo da Serra da Estrela que alimentam o Mondego e das temperaturas mais elevadas que se verificam atualmente.

Reconhecendo que Portugal está a viver uma situação de exceção, em que a chuva "não dá tréguas", o ex-bastonário defendeu reajustes adequados ao ciclo da obra e atenção aos efeitos das alterações climáticas, que contribuem para aumentar o risco.

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