Especialistas de Arte-Terapia discutem o uso da arte em tratamentos psicológicos
O tratamento psicológico com recurso a dança, pintura, escultura, teatro ou música está a aumentar em Portugal, e embora os arte-terapeutas não sejam ainda reconhecidos profissionalmente, realizam sábado em Lisboa um congresso.
Arte-terapia, Identidade e Alteridade é o tema do VI Congresso Nacional de Arte-Terapia que se realiza sábado e domingo no Instituto Português da Juventude, em Lisboa.
Neste congresso, psico-terapeutas portugueses e estrangeiros vão discutir de que forma "os conceitos e vivências da arte, da identidade e da mudança estrutural se podem interligar", afirmou Daniela Martins, da Sociedade Portuguesa de Arte-Terapia (SPAT), promotora do evento.
A Arte-Terapia é um método de tratamento psicológico que integra mediadores artísticos e que recorre à imaginação, ao simbolismo e a metáforas para enriquecer o processo.
Segundo a SPAT, estas características facilitam a comunicação, a reorganização interna, a expressão emocional, um melhor conhecimento interior do paciente, que aprende ainda a libertar a sua capacidade de pensar e criatividade.
Em Portugal existem perto de 60 arte-terapeutas, que dão essencialmente consultas na SPAT, mas que também trabalham em enfermaria no Hospital Miguel Bombarda e no departamento de psicoterapia do Hospital do Barreiro, afirmou Daniela Martins.
"Está ainda a ser estudado um protocolo com o Hospital Júlio de Matos e foi recentemente assinado outro com um centro de psico- pedagogia no Algarve", acrescentou.
Para além disso, estes arte-terapeutas desenvolvem trabalho em escolas e instituições, a pedido dos responsáveis, disse, acrescentando que embora tenham terapêuticas para todas as idades, há uma maior procura por parte de pessoas que trabalham com crianças.
"Qualquer pessoa, ou grupo, pode recorrer a este método terapêutico, bastando-lhe dirigir-se à SPAT, que tem clínica em Lisboa e em Torres Vedras, e marcar uma consulta".
Existe ainda o "Programa Psico-Social de Arte-Terapia" para pessoas com dificuldades económicas, que pagam de acordo com o seu rendimento, podendo "mesmo chegar a não haver pagamento no caso de a pessoa não poder", sublinhou.
A Arte-Terapia é um modelo de fácil aplicação, uma vez que "a musicalidade interna, a capacidade de se mover, de dançar, de pintar, de modelar e outros actos criativos são comuns a todos nós", sendo a criatividade "universal, pertencendo ao fenómeno humano e não só a alguns seres talentosos".
Quando se fala em arte-terapia, está-se a falar mais concretamente de artes, pois este modelo terapêutico utiliza diversos "mediadores": pintura, desenho, modelagem, escultura, colagens, drama e jogos dramáticos, marionetas, jogo de areia, expressão corporal, música, canto, poesia, escrita livre criativa e contos.
Assim, a expressão artística é central na psico-terapia, pois a partir da sua própria criação artística, o paciente vai conhecer-se melhor, através dos seus sentimentos antes e após, e transmitir ao terapeuta informação importante para o diagnóstico.
"O objecto de arte tem uma função cognitiva, fornecendo ao sujeito informações sobre si próprio e ao arte-terapeuta um registo do processo".
A arte-terapia pode ter quatro tipos de intervenção: educacional ou estruturada, vivencial, integrativa e analítica-expressiva.
Na primeira o psicoterapeuta estabelece um plano de trabalho e desenvolve-o em comunidades terapêuticas, centros de reabilitação e escolas.
O segundo modelo visa facilitar a descoberta interior através do imaginário e do desenvolvimento da criatividade, estando particularmente indicado para o trabalho em instituições, com pacientes de evolução prolongada e com patologias severas, como psicoses.
O terceiro tipo de intervenção integra os diferentes mediadores, ou seja todos os tipos de expressão artística, sendo aplicável a pacientes para os quais o recurso a um mediador específico (música por exemplo) possa ser limitante.
O último modelo de intervenção utiliza o objecto de arte como suporte para aprofundar a compreensão interna do paciente, implica pelo menos duas sessões semanais e exige do psicoterapeuta uma postura mais analítica.
Daniela Martins afirma que a arte-terapia se aplica em Portugal pelo menos há dez anos (tempo de existência da SPAT), que tem cada vez mais procura e que é uma técnica terapêutica utilizada já em vários países do mundo.
Contudo, à excepção dos Estados Unidos e da Inglaterra, em que a arte-terapia é reconhecida como uma profissão, nos outros países é tida como uma "terapia alternativa", lamentou.
"Mas não é. A arte-terapia é um tratamento que até pode ser de base", acrescentou aquela responsável da SPAT.
O congresso vai reunir psicoterapeutas de todo o mundo que vão discutir temas como a influência da arte na mudança de identidade, de que forma pode a criatividade contribuir para reforçar a identidade das pessoas, como é que a influência da globalização se manifesta na arte, ou que inovações na técnica de arte-terapia a tornaram mais eficaz no tratamento de pacientes.
O congresso engloba ainda o I Encontro da Sociedade Internacional de Psicopatologia da Expressão e Arte-Terapia.