Especialistas mundiais debatem em Lisboa os limites da Ciência

Qual a origem da vida, o que é a consciência e como resolver o problema das teorias inverificáveis são algumas questões que continuam sem resposta e que colocam os cientistas perante a dúvida: será que a ciência tem limites?

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

O assunto vai estar em debate numa conferência internacional subordinada ao tema "A Ciência terá limites?", que decorre quinta e sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, onde são esperadas centenas de pessoas e que conta com a participação de conceituados cientistas das mais diversas áreas e nacionalidades.

João Caraça, director do serviço de ciência da Gulbenkian, explica que a ideia da conferência surgiu com o ensaísta George Steiner, da Universidade de Cambridge, que propôs ao presidente da fundação organizar uma debate sobre o tema.

Em entrevista à Agência Lusa, João Caraça define as "duas grandes linhas de força do debate": por um lado, chamar a atenção para que a ciência é uma parte integrante da cultura, devendo ser discutida pelos cidadãos, e, por outro lado, perceber que o futuro depende do que for a qualidade da ciência e da investigação científica que se vai fazer.

"A pergunta que se faz é: estará a ciência perto dos limites? O professor George Steiner apresenta a sua posição no início [da conferência]. Ele é um humanista e coloca interrogações, e naturalmente que os cientistas que aqui vêm, cada um nos seus temas, se dirigirão a este tipo de questões", disse.

"Mas a ciência tem ou não limites?", questiona João Caraça, respondendo de seguida: "Tudo depende de como olharmos".

Existem limites, fronteiras, condições e constrangimentos. Mas à pergunta se a ciência é finita, se está perto do fim, como já aconteceu com muitas outras coisas, os cientistas dirão que não.

Para o físico, tal "é impossível de acontecer", porque a ciência é o mecanismo de conhecimento dos fenómenos da natureza. O universo é infinito, portanto o conhecimento sobre a natureza não tem limites, aqui não há fim.

Contudo pode-se encarar a seguinte questão: o conhecimento sobre a natureza é transmitido através de linguagens especializadas, que têm que descrever o objecto adequadamente, caso contrário, há um constrangimento - "a realidade não está a ser bem descrita e não será possível entender como funciona".

Exemplo disso é a Biologia, área que durante muito tempo estudou os seres vivos a partir de seres mortos, o que constituía uma forma de não conseguir descobrir adequadamente a realidade.

"Tudo depende da precisão dos instrumentos que usamos. Se usarmos instrumentos que não têm precisão adequada, não vemos os fenómenos que estamos a querer estudar", defendeu João Caraça, lembrando que quando o nível de complexidade é muito elevado, é possível não encontrar linguagens adequadas e, consequentemente, não se consegue propor solução para o problema.

Esta é, aliás, a pedra de toque. Saber se a ciência tem limites é uma pergunta de sempre, mas "actualmente existem razões específicas para a pôr", salienta.

Desde logo, a "teoria das cordas, uma teoria explicativa que é muito eficaz e bonita do ponto de vista matemático, mas que neste momento não se consegue conceber uma experimentação do caso que permita descobrir se é verdadeira ou falsa. É uma teoria belíssima, mas não verificável", afirma.

Aliás, este é mesmo um dos principais temas da conferência, porque, como alerta George Steiner, "a possibilidade de a teoria das cordas não poder ser verificada nem falseada implica uma crise ontológica no seio do próprio conceito de ciência".

Relativamente às ciências da vida, também persistem dúvidas ancestrais. Será que se vai conseguir compreender finalmente o que é a consciência? Pode o observador observar-se a si próprio e assim conseguir entender o que é a consciência? Mais uma questão por responder, que vem desde Descartes, o fundador do pensamento moderno, que estabeleceu a separação entre o corpo e a mente, lembra João Caraça.

É possível recuar ainda mais no tempo e encontrar interrogações que atravessam séculos sem serem explicadas, como a origem da vida e da humanidade.

"Não sabemos qual a origem da vida e, contudo, a origem é o significado. Nós estamos cá com um objectivo? Ou não há objectivo nenhum e somos nós que damos um objectivo à nossa vida?", questiona João Caraça, para quem todas estas são perguntas culturais que "a ciência tem necessariamente que contribuir para dar uma resposta. Se não houver uma contribuição científica forte, a resposta é coxa".

A limitação à actividade científica pode também ser exercida por factores externos.

O responsável lembra que a ciência se faz em instituições, laboratórios e empresas, e que "se não houver condições para trabalhar, a qualidade da investigação ressente-se".

O apoio da sociedade, e o suporte financeiro, por exemplo, são determinantes para que a ciência se realize, afirma, acrescentando que a política está inevitavelmente interligada com esta questão, na medida em que só numa democracia se pode discutir livremente o papel da ciência na sociedade.

No final, João Caraça deixa um apelo à participação no debate, pois as perguntas interessam a todos, e são as várias opiniões, de cada um, que vão contribuir para formular uma só resposta, "colectiva e robusta".

PUB