Espírito "motard" de paz e amor chega a Faro
O espírito "motard" de "paz e amor" voltou hoje a pairar no místico lugar de Vale das Almas, junto à Ilha de Faro.
No 24º ano consecutivo da concentração de Faro, um milhar de voluntários aguarda, debaixo de um tórrido sol de Verão, cerca de 30 mil motociclistas.
A brisa marítima do Parque da Ilha Formosa foi invadida logo pela manhã pelas primeiras poeiras dos milhares de motociclistas que aceleravam para chegar ao recinto da concentração.
O objectivo número um é levantar um ingresso - que este ano custa 35 euros - e que é a passagem para uma dimensão de paz, campo, sol, cerveja, e muitas motas.
Os bilhetes dão acesso imediato a quatro dias de festa, alguns almoços e jantares, piscina artificial, concertos nocturnos, parque de campismo incluído com chuveiros e ainda muitos chuveirinhos que estão presos em cabos aéreos e nas horas mais quentes pulverizam suavemente os mais acalorados.
"Temos muitos anos de experiência a organizar este evento, que é pensado ao mais ínfimo pormenor", contou à Lusa, Armando Serro, 40anos, elemento da direcção do Motoclube de Faro, a entidade organizadora da que é considerada a maior concentração de motos da Europa e uma das maiores do mundo.
Armando Serro menciona até, com algum orgulho, que muitos dos festivais de Verão que emergiram nos últimos anos em Portugal se inspiraram em muitos detalhes na concentração de Faro.
"Muita gente aprendeu connosco", assegura.
O Motoclube de Faro começou a trabalhar, em termos teóricos na organização da concentração "motard" há cerca de seis meses.
Em termos práticos, a equipa de voluntários arregaçou mangas há dois meses, colocando redes de protecção, saídas de emergência, montagem do palco gigante, iluminação, limpeza da área (quase 40 hectares), acampamento e, principalmente, na melhoria da segurança, que todos os anos é tida em conta.
No recinto da festa dos "motards" vão estar de vigia 24 horas sobre 24, duas dezenas de bombeiros, com 10 viaturas, pois a seguir à segurança, o ambiente é a grande preocupação dos organizadores.
"Nunca houve um incêndio neste cantinho do parque Natural da Ria Formosa", assegurou Armando Serro, acrescentando que colocaram também fossas cépticas para recolher os esgotos e outras águas sujas para locais autorizados.
A falta de água e a seca algarvia não fugiu à sensibilidade do Motoclube de Faro que para os banhos e regas nos caminhos de pó está a utilizar água salobra, que já não iria ser utilizada para consumo humano.
Um dos locais guardados com mais carinho e profissionalismo é o hospital da concentração, uma antiga empresa de "catering" que em tempos idos servia o aeroporto de Faro e que hoje foi recuperado para ser uma unidade hospitalar em exclusivo para os motoqueiros.
Recebendo uma média de 700 doentes em edições anteriores, o hospital - com ar condicionado e salas de internamento e cirurgia - recebe enfermos "vítimas" principalmente de alergias, queimaduras de escape e solares, gastroentrites e alguns exageros alcoólicos.
A equipa de saúde é constituída por 31 médicos de várias especialidades, 53 enfermeiros, 54 socorristas, oito tripulantes de ambulância de socorro e 36 motoristas - todos voluntários - que, por turnos, vão assegurar os cuidados de saúde necessário, disse à Lusa João Ildefonso, responsável pela unidade.
De mãos dadas com a segurança e ecologia está o lazer e a descontracção na concentração de Faro, um lugar de terapia de grupo onde nem todos têm mota.
Entre os milhares de motociclistas que partilham o gosto pelas motas, há muitos outros que chegam ao Vale das Almas pelo misticismo da festa, pelo espaço natural onde decorre a festa, junto à ilha e à praia de Faro ou simplesmente para fazer uma espécie de terapia de grupo anti-stress e esquecer por quatro dias a vida quotidiana e rotineira.
Anne, inglesa de 44 anos vem pela segunda vez ao movimento motard de Faro. Chegou a Faro de avião, com alguns amigos.
Todos em busca de sol, da praia, comida portuguesa e, claro, da concentração, cujo ambiente apreciam.
Já a espanhola Sara Arenos, de 24 anos, chegou ontem de Valladolid à capital algarvia, depois de 12 horas montada numa BMW com o seu namorado.
"É a primeira vez que aqui venho e já estou encantada. Vou ficar uma semana por estes lados", lançou espontaneamente.
Sem trazer a cerveja na mão, nem a tradicional tatuagem, Sara, de pele imaculadamente branca e cabelos pretos com cachos de caracóis ao vento, nomeia o espírito de "amizade" e o "companheirismo" que se vive na concentração como os trunfos deste encontro de almas junto à Ilha de Faro.