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"Estado vai dar o exemplo e vai continuar esse processo de aumento do financiamento para a Cultura", garante a ministra
Margarida Balseiro Lopes não tem dúvidas: "a Cultura é merecedora de um aumento muito significativo do seu orçamento. Foi isso que aconteceu de 2024 para 2025 e de 2025 para 2026".
Fotografia: Kenia Nunes
No programa Consulta Pública, transmitido a partir do renovado Teatro Nacional Dona Maria II (TNDM), Balseiro Lopes reforça que "o Estado vai dar o exemplo e vai continuar esse processo de aumento do financiamento para a Cultura".
A ministra repete a ideia: "é preciso reforçar verbas e é isso que estamos a fazer". E exemplifica com a declaração anual de apoios, na qual "temos refletido um aumento, em cada um dos anos, de quase 10 milhões de euros".
Margarida Balseiro Lopes sensibiliza, no entanto, que o investimento em Cultura não pode ser apenas público, referindo-se à importância do mecenato cultural, o qual tem um novo regime aprovado o mês passado.
"Nos próximos dias vamos publicar a portaria e vamos fazer sessões públicas porque temos uma nova e boa lei, mas depois as estruturas não conseguem ter acesso a ela porque não sabem como funciona", diz.
"O objetivo é mesmo explicar", e nesse sentido o Ministério da Cultura organiza duas sessões públicas, a primeira no dia 28 de setembro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e a segunda a 2 de outubro, no Porto.
Durante o programa Consulta Pública a responsável pela pasta da Cultura adiantou ainda que em relação ao Estatuto dos Profissionais da Área da Cultura "até ao final deste mês, o grupo de trabalho que constituí vai fazer-me chegar um relatório - até tenho ideia de que será já na próxima semana - com as principais recomendações para fazermos do Estatuto aquilo que, quem criou o Estatuto, queria que ele fosse".
Especificamente sobre as obras de requalificação e de renovação do TNDM, que custaram 15 milhões de euros, verba inscrita no Plano de Recuperação e Resiliência, a ministra acredita que "foi uma oportunidade para o Teatro se reinventar. Estes três anos foram muito importantes para oferecer ao público uma nova casa".
Ideia partilhada por Pedro Penim. O diretor artístico do TNDM admite que "criou-nos esta oportunidade incomparável e irrepetível de podermos, nestes três anos e oito meses em que esta casa esteve fechada, testarmos esta elasticidade de um teatro nacional".
"O que se passa dentro do teatro é precisamente o antídoto para o extremismo"
O Teatro Nacional reabre trazendo à cena a peça Macbeth, de William Shakespeare. Na opinião de Pedro Penim a obra "já contém uma série de temas que dirão sempre respeito a todas as sociedades. De qualquer forma esta ideia do fascínio do mal ela é muito contemporânea".
O também ator e encenador faz por isso um paralelismo entre a atualidade e a peça: "esse perigo (de renegar a Cultura para um segundo plano em termos de investimento público) é muito real. Existem muitos exemplos de uma ingerência muito precisa e muito nefasta à saúde das instituições culturais e à possibilidade de elas garantirem a sua independência".
"Essa ideia de que as instituições podem ficar a salvo daquilo que são as opções políticas não faz sentido nenhum", conclui.
Na mesma linha Rui Catarino, presidente do Conselho de Administração do Teatro Nacional D. Maria II, reforça que "abrir ou reabrir um teatro é fundamental para a Democracia porque o que se passa dentro do teatro é precisamente o antídoto para o extremismo e a polarização".
"Os trocos que dão à cultura são ridículos"
Vários dos convidados do Consulta Pública destacam como grandes desafios do setor o subfinanciamento, a falta de espaços para apresentar peças e as condições físicas para fazer teatro.
"Os trocos que dão à cultura, com grande favor, são ridículos", atira Miguel Seabra.
O fundador e diretor artístico do Teatro Meridional explica mesmo que "ocupamo-nos mais a preencher papéis porque depois o dinheiro ou é para a criação ou é para a equipa". E acrescenta: "somos preparados para fazer o pino em cima da água. Estamos sempre a fazer milagres".
"Hoje em dia, é quase inevitável, quando se juntam pessoas para falar sobre teatro acabam a falar de dinheiro", quem o diz é Rodrigo Francisco. O diretor do Teatro de Almada defende que a lei que regula o financiamento público das companhias "nem sempre vai ao encontro da realidade destas várias estruturas".
Joana Craveiro destaca também como grandes desafios o subfinanciamento e as condições físicas para se fazer teatro. A diretora artística do Teatro do Vestido reivindica: "os artistas precisam de condições para trabalhar. Só que essas condições são geradas por eles próprios e esse é um dos maiores desafios".
À lista de desafios José Luís Garcia acrescenta outro: "do que sinto mais falta é de tempo de criação. Tornamo-nos, pelo apoio que nos dão, fábricas de criação. Sem tempo não há evolução e a experimentação fica quase em segundo plano porque tens de criar peças que se transformem rapidamente em algo apresentável ao público, sabendo que, na sua fragilidade, ainda não estariam prontas".
No mesmo sentido segue Rui Pina Coelho. O docente e investigador na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa alerta mesmo para a uniformização do setor. "Um dos desafios é não perder essa diversidade, mas os caminhos são, contudo, no sentido oposto: de uma estandardização. É um perigo que vejo num futuro não muito distante. É um risco real", lamenta.
E acrescenta que "tenho impressão de que as instituições que tomam conta do teatro em Portugal, quem acompanha, quem financia, não tem a completa noção da riqueza do teatro português".
O programa Consulta Pública é moderado pelo jornalista Frederico Moreno.