Estudantes de Medicina portugueses no estrangeiro vão poder acabar curso em Portugal - Ana Jorge
Lisboa, 28 Jan (Lusa) - O Ministério da Saúde vai convidar os alunos portugueses de Medicina que estudam no estrangeiro a terminarem o curso nas universidades portuguesas, uma medida para combater a falta de médicos que tem conduzido ao crescimento de "mercenários" no sector.
A decisão foi anunciada pela ministra da Saúde, Ana Jorge, em entrevista à Agência Lusa a propósito do seu primeiro ano de mandato, durante a qual reiterou a sua preocupação com a falta de médicos em Portugal.
Uma das medidas que o Governo está a concretizar para contornar o problema passa por convidar estudantes de Medicina que estão a tirar o curso no estrangeiro a terminarem a sua formação em Portugal. Estão já em curso negociações com as universidades, que manifestaram interesse em acolher estes alunos portugueses, o que deverá acontecer no próximo ano lectivo.
O objectivo é que estes estudantes, depois de tirarem o curso, fiquem a exercer em Portugal, uma vez que quando o fazem no estrangeiro e tentam trabalhar nas instituições portuguesas são penalizados no reconhecimento do curso, o que a tutela está a tentar resolver.
De acordo com Ana Jorge, são cerca de 700 os portugueses a estudar Medicina no estrangeiro, nomeadamente em Londres, Espanha e República Checa. Destes, 200 estão a acabar o curso.
O Ministério pretende ainda reforçar a "importação" de médicos do estrangeiro. Do Uruguai chegaram já 15, que estão a trabalhar no Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), estando prevista a chegada de mais 20.
De Cuba deverão vir 40, por um período de três anos e para exercerem nos locais onde "há mais dificuldade em colocar médicos", especificou Ana Jorge.
Portugal irá ainda acolher médicos do Chile, que chegarão para fazer a sua especialidade durante cinco anos.
Mais estudantes de Medicina nas faculdades e o seu encaminhamento para especialidades mais carenciadas, através da abertura de vagas, são medidas com que a tutela espera resolver o problema da falta de médicos, que se agudizou nos últimos anos, essencialmente devido à "abertura de instituições privadas".
Ana Jorge reconhece o problema e assume que "o Serviço Nacional da Saúde (SNS) não tem, do ponto de vista financeiro, possibilidade de concorrer com o privado".
A aposta passa por uma nova definição de carreiras, cuja proposta deverá seguir "dentro de dias" para os parceiros, depois de analisados os seus contributos.
Até lá, Ana Jorge lamenta que existam no sector verdadeiros "mercenários" que tenham optado por dar "prioridade ao dinheiro", numa referência aos médicos que só trabalham através de empresas privadas, assegurando sucessivos bancos de urgências em várias instituições e por todo o país.
"Chamo-lhes mercenários", disse a ministra, lembrando que a tutela regulou recentemente os pagamentos por hora destas empresas e definiu regras, como a obrigatoriedade dos hospitais justificarem o recurso a estes profissionais.
Contudo, Ana Jorge reconhece que, se os hospitais alegarem que não encontraram no mercado preços por hora mais baratos, então têm de comprar serviços ao preço que as empresas pedem.
A ministra disse desconhecer manobras das empresas para assegurarem um elevado preço por hora, mas afirmou saber que "roubam médicos entre eles" e que vão buscá-los ao Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Em 2007, um total de 1.047 médicos deixaram o SNS, sendo 643 destes abandonos "saídas puras", segundo os dados do Ministério da Saúde. Os restantes médicos que saíram do SNS fizeram-no porque se reformaram (321) ou ao abrigo de licenças sem vencimento (81).
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