Estudo revela que comunidade cigana tem métodos próprios de cálculo mental
Famalicão, 25 Abr (Lusa) - A forma "inédita" como os feirantes de etnia cigana fazem as contas foi objecto de estudo para a tese de mestrado de Cláudio Candeias, um professor do 1º Ciclo, que define o cálculo mental dos ciganos como "muito bom".
"A comunidade cigana com quem trabalhei tem métodos próprios de cálculo que não se aprendem na escola", disse à Lusa Cláudio Cadeia, autor da tese de mestrado "Etnomatemática - o cálculo mental na comunidade cigana", apresentada na Universidade do Minho.
Professor do 1º Ciclo do Ensino Básico, Cláudio Cadeia "viveu" dois anos com famílias ciganas que têm como modo de vida a venda de vestuário e calçado nas feiras, sobretudo nos mercados de Vila Nova de Famalicão e Joane.
O objectivo era o de perceber como, apesar da baixa escolaridade, adultos e crianças conseguiam fazer "contas de cabeça" e dar correctamente os trocos aos clientes.
"Comecei por questionar com números inteiros, depois fui complicando com os cêntimos e eles, embora com ritmos diferentes, conseguiam sempre resolver as contas. Alguns têm um cálculo mental muito bom", referiu o professor.
A investigação permitiu concluir que, na comunidade estudada, o cálculo mental é ensinado na família e não na escola.
"Em situações de troco, utilizam o método de subtrair, modificando até ao múltiplo de dez mais próximo. Recorrem muito à propriedade distributiva da multiplicação em relação à adição embora sem saberem os nomes das operações que realizam", salientou.
Parece complicado? Cláudio Candeia explica: "O cliente dá 100 euros para pagar 28 euros. Eles fazem a conta até aos 30 euros e depois concluem com os restantes dois euros" e completam o troco até chegar aos 100 euros.
O trabalho de campo junto da comunidade cigana foi uma experiência "inesquecível e aliciante".
"Fui sempre muito bem recebido apesar de algumas situações caricatas como a de ser confundido com um agente da Polícia Judiciária ou com um fiscal da feira", disse o autor da tese.
O conceito de etnomatemática surgiu nos anos setenta, tendo por base as críticas sociais feitas ao ensino tradicional da Matemática independentemente dos diferentes contextos sociais e culturais de cada país.
Actualmente, a etnomatemática compreende a forma como certas comunidades, etnias e raças vivem a matemática.
A geometria da cultura indígena, os jogos tradicionais de memória e raciocínio de algumas tribos africanas, entre outras, são consideradas formas únicas de entender os números.
Também a forma como a comunidade cigana lida com o cálculo mental, segundo Cláudio Candeia, é o resultado de uma cultura (etnia) "muito própria".
"Espero que a tese seja um contributo para combater o abandono escolar muito precoce da comunidade cigana e para que o ensino procure adaptar-se ao ritmo de aprendizagens das etnias", frisou o docente.
EYM.
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