Eucalipto ganha terreno em área florestal portuguesa

O novo Inventário Florestal Nacional (IFN), divulgado esta sexta-feira, mostra que na última década o eucalipto ganhou terreno na área florestal portuguesa. Ocupando mais de um quarto do território, o eucalipto tem vindo a aumentar em zonas que eram de pinheiros-bravos e sobreiros. Os dados são relativos a 2015 e não refletem o impacto dos incêndios de 2017.

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Os dados são claros: um quarto da floresta nacional já é ocupado pelos eucaliptais. Divulgados esta sexta-feira pelo jornal Público, os dados referem-se ao Inventário Florestal Nacional de 2015 e apontam que, na década entre 2005 e 2015, duas das principais espécies do território nacional – o pinheiro-bravo e o sobreiro – perderam terreno, enquanto o eucalipto tem aumentado na floresta portuguesa.

Embora sejam ainda provisórios, os dados indicam que houve um “tímido” aumento da floresta e que o território nacional se tem tornado cada vez mais urbanizado e menos agrícola.

No período em análise assistiu-se a um aumento de cerca de 10 por cento de área urbanizada. Em 2005, o território ocupado com prédios, edifícios e construção diversa era de 399 mil hectares e, em 2015, já ultrapassava os 442 mil hectares.

Já a área utilizada para a agricultura tem diminuído progressivamente desde 1995. Entre a década de 1995 e 2005, passou de 2,4 milhões de hectares para pouco mais de dois milhões. Mas, apesar de continuar em decréscimo, registou-se uma diminuição menos dramática entre 2005 e 2015. 
Aumento de eucaliptais “não é nada surpreendente”
O IFN de 2015, que vai ser divulgado esta sexta-feira pelo Ministério da Agricultura, conclui que há um significativo aumento das áreas ocupadas por eucaliptos em Portugal. No entanto, o ritmo de crescimento desta espécie tornou-se mais lento.

Se por um lado, entre 1995 e 2005, registou-se um aumento de 10 por cento da área ocupada por eucalipto, entre 2005 e 2015 a evolução foi menor, registando-se apenas sete por cento.

O eucalipto ocupava 24 por cento da área total da floresta em Portugal em 2005, isto é, 786 mil hectares. Já em 2015, ocupava 26 por cento do território – 844 mil hectares.

Paulo Fernandes, especialista em fogos florestais e professor na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, disse ao Público que este aumento registado na área ocupada por eucalipto “não é nada surpreendente” e, na verdade, “abrandou” visto que já “não cresce como nos anos 1990”.
 
O eucalipto, o pinheiro-bravo e o sobreiro são as principais espécies em Portugal. Com o aumento significativo das áreas ocupadas pelo eucalipto, registou-se uma perda acentuada das outras duas.

Passando de uma ocupação de 798 mil para 714 mil hectares na floresta portuguesa, o pinheiro-bravo perdeu cerca de 10,5 por cento no período em análise no inventário. Já o sobreiro, que em 2005 ocupava 731 mil hectares passou para 720 mil, perdeu apenas 1,5 por cento.

Estas três espécies juntas ocupam mais de dois terços de todo o território florestal em Portugal.
Mais espécies na floresta portuguesa
Apesar do grande crescimento eucaliptal nas florestas portuguesas, houve um aumento de outras espécies na década de 2005 a 2015, segundo apontam os dados do IFN.

O castanheiro, a alfarrobeira, as acácias, a azinheira, o carvalho e o pinheiro manso, são algumas das espécies que, embora ocupem áreas muito menores, aumentaram até 2015.

A área ocupada por pinheiros-mansos aumentou cerca de 11,6 por cento, tendo passado de 173 mil hectares para 193 mil. Relativamente ao carvalho, houve um aumento de 24,2 por cento, o que corresponde a um aumento de 66 mil hectares para 82 mil.

O especialista em economia da floresta e professor na Universidade Católica, Américo Carvalho Mendes, disse à Antena 1, esta sexta-feira, que o eucalipto vai continuar a dominar a floresta portuguesa, visto ser a espécie mais rentável para os donos dos terrenos.

O especialista afirmou ainda que só com um aumento das outras espécies se pode contrariar o aumento exponencial de eucaliptos em Portugal e que, mesmo com a nova lei de restrição da plantação de eucaliptos, esta espécie vai ganhar ainda mais expressão na floresta nacional.

Aumento pouco significativo da floresta
O Inventário Florestal Nacional revela ainda outra conclusão: houve uma inversão no decréscimo da área total da floresta em Portugal.

Mas para Paulo Fernandes, entrevistado pelo Público, é um “aumento tímido” e pouco significativo. Não é só necessário fazer crescer a área florestal. É mais importante conseguir mantê-la, na opinião do especialista em fogos florestais.

Outra conclusão deste inventário é a presença de espécies invasoras “de forma generalizada” no território continental, embora as “situações de presença maciça (…) sejam significativamente raras”. As mais detetadas foram as acácias e háqueas, as canas e o chorão-das-praias, de acordo com o Ministério da Agricultura. 
Inventário é divulgado hoje mas dados não estão atualizados
Os dados do Inventário Florestal Nacional de 2015 foram recolhidos pelo Instituto de Conservação das Florestas e da Natureza (ICFN) em 2015, com base em estimativas e processos de amostragem como o uso do solo, captura de imagens e cartografia. 

Este estudo é realizado visando uma avaliação da “abundância, estado e condição dos recursos florestais nacionais”, de forma a poder “monitorizar a alteração destes recursos ao longo do tempo”, informa o ICNF citado pelo Público.

Considerando a demora na recolha de dados e a sua interpretação e avaliação, os dados foram recolhidos em 2015 mas só são divulgados esta sexta-feira, 28 de junho de 2019.

A versão divulgada hoje será uma versão provisória. No entanto, não constará no inventário detalhes dos últimos quatro anos – de 2015 a 2019.

Os grandes incêndios de 2017 e as consequências dos mesmos não constam neste documento. Mas, só nesse ano, cerca de 10 por cento da área florestal ardeu, embora não tenha desparecido efetivamente.


Segundo Rosário Alves, da Associação Florestal de Portugal, as zonas dos incêndios têm atingido, especialmente, áreas ocupadas por pinho. A “área ardida em 2017 tem um forte impacto na floresta de pinho que não é contabilizado neste IFN”, afirmou ao Público.

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