Exército cresceu com a cidade, abandona-a cem anos depois

O encerramento, no final de Junho, do quartel da Escola Prática de Serviços e Transportes (EPST) da Figueira da Foz põe fim a cerca de cem anos de presença militar efectiva na cidade.

Agência LUSA /

O fecho irreversível da unidade e consequente ausência do Exército da Figueira deixa um sentimento de perda nos antigos militares e no Presidente da Câmara.

A EPST está estabelecida desde 1977 no quartel da Lapa - situado num morro sobranceiro ao rio e à zona antiga da localidade - tendo, ao longo de quase 30 anos de actividade, formado mais de 40 mil condutores militares de diversas viaturas, entre as quais as de transporte de materiais perigosos.

A Escola Prática, que possui como lema "Ensinar para Bem Servir", sucedeu naquele local ao Regimento de Artilharia Pesada (RAP 3) que teve papel importante na Revolução de Abril de 74.

Na madrugada de 25 de Abril de 1974 uma bateria do Regimento de Artilharia Pesada 3, duas colunas de Infantaria de Aveiro e Viseu e uma companhia do CICA 2, formam o Agrupamento Militar Norte e, comandados pelo então capitão Dinis de Almeida, "marcham" da Lapa em direcção ao Forte de Peniche, e depois a Lisboa.

"Na Figueira havia poucos oficiais afectos ao Movimento das Forças Armadas. Abalámos de Águeda quando ouvimos a senha de confirmação, chegámos aqui e ficámos no quartel" recordou à Agência Lusa Góis Moço, um dos oficiais revoltosos, hoje coronel na reserva e antigo comandante da EPST.

Aos 60 anos, Góis Moço lamenta o encerramento do quartel que comandou entre 1997 e 2000, considerando-o uma perda para a cidade.

"É com imensa tristeza e alguma dor que o vejo encerrar. E uma perda muito grande, o Exército viu crescer a cidade e cresceu com a cidade" sublinha.

Na altura em que comandou a EPST a guarnição do quartel rondava os 900 homens, entre oficiais, sargentos e praças, encontrando- se hoje reduzida a pouco mais de centena e meia de elementos, a maioria militares mas também civis.

Góis Moço lembra que a EPST foi "pioneira" na aplicação de medidas relacionadas com o ensino da condução, das quais destaca os exames psicotécnicos "eliminatórios e prévios à condução", a disciplina de prevenção e segurança rodoviária, introduzida no início dos anos 90 e um parque de manobras "a funcionar no estrito cumprimento da lei".

Destaca ainda a "rigorosa selecção" dos instruendos formados pela EPST, que aprendiam a conduzir diversos tipos de veículos - dos pesados, aos articulados, autocarros e de transporte de materiais perigosos.

Ali foram formados, igualmente, condutores para missões específicas do Exército português na Bósnia ou Timor-Leste, entre outros locais.

É preciso recuar até finais do século XIX, poucos anos após a elevação da Figueira da Foz a cidade, para assistir à chegada dos primeiros militares à zona do Pinhal, onde foi construído um primeiro quartel, hoje desactivado.

Por ali passaram até 1975, meios de Artilharia e Infantaria - o primeiro soldado português morto na I Grande Guerra pertencia à Infantaria 28, ali instalada - tendo o quartel passado a coexistir com o da Lapa, em 1939, ano da abertura deste.

Ao longo dos anos foram várias as transferências e extinções em ambas as unidades, culminando, em 1975, com o fecho da Companhia de Instrução e Condução Automóvel (CICA 2) e consequente desactivação do quartel do Pinhal em cujos terrenos está hoje instalada a PSP e a Universidade Internacional.

Já o quartel da Lapa começou por ocupar, em 1939, sensivelmente dois terços da área de cerca de dez hectares que hoje ocupa.

No final da década de 40, antecipando a adesão de Portugal à NATO (1955) dá-se a expansão das instalações, com a expropriação dos terrenos do antigo bairro da Lapa, no âmbito da reestruturação do Exército protagonizada por Santos Costa, ministro da Guerra de Salazar.

Para além dos aspectos operacionais, o fecho do quartel tem, segundo o antigo comandante Góis Moço, reflexos na relação da instituição militar com a sociedade civil, sustentada, entre outros aspectos, pelos Encontros de Arte, regularmente promovidos pela EPST desde meados da década de 90.

"Para além daquilo que era produzido nos encontros de arte e aquilo que estes representavam de abertura à sociedade civil, há todo um património de relações afectivas e empatia com a cidade que se perde" afirma Góis Moço.

Do acervo resultante dos encontros, espalhado pelas instalações da EPST, constam mais de 300 peças, entre pintura e escultura, produzidas por dezenas de artistas.

"O [artista plástico] Mário Silva foi um dos grandes impulsionadores dos encontros. Entre vários pintores recebemos o moçambicano Malangatana que ofereceu um quadro ao quartel", recorda.

Já um simpósio de escultura, organizado durante 15 dias dentro da unidade militar, levou vários escultores a trabalhar ao vivo, perante o entusiasmo dos militares da guarnição.

Há mais de 50 anos, António Guedes, beirão natural de Pomares, distrito da Guarda, chegou à Figueira da Foz para cumprir o serviço militar.

Foi, indirectamente, a unidade da Lapa que lhe garantiu o sustento, quando, em 1954, decidiu adquirir um pequeno restaurante, situado rua abaixo, a poucas centenas de metros do quartel.

Terminada a tropa, onde servia na cantina, e desafiado pelos camaradas, acabou por adquirir a Casa do Barril, onde os companheiros de armas rumavam: "Comiam e bebiam, naqueles tempos viviam melhor", garante.

O `Barril` manteve a actividade até Guedes trocar as mesas de refeição por outras, de bilhar, num café homónimo de que foi proprietário durante três décadas.

Mas a clientela manteve-se, apesar da mudança: "Todos os militares me conheciam, caíam todos aqui. Se não fosse assim, não tinha ficado na Figueira", garante hoje, com 75 anos, três filhos e três netos.

Duarte Silva, o social-democrata que preside à autarquia local, lamenta igualmente o fecho da EPST: "Tenho pena, pessoalmente e como Presidente da Câmara que a Figueira da Foz deixe de ter uma unidade militar", frisou.

Quanto a uma eventual alienação daquele património por parte do Exército, avisa que o Plano Director Municipal (PDM) define a área como equipamento, classificação que a autarquia pretende manter.

"Continuo a defender que seja equipamento. Foi a posição que defendi enquanto presidente da Assembleia Municipal [há dois mandatos] e mantenho-a", disse.

Assim, uma eventual venda do quartel com fins urbanísticos, por exemplo, esbarra no PDM.

"Só podia ser fonte de receita para o Exército se a Câmara mudasse a classificação. Não fomos vistos nem achados [na decisão de encerrar], não propusemos nenhuma alteração ao PDM, nada ali pode ser feito que não seja entendido ser do interesse do município", sublinhou.

Com o encerramento da EPST os militares deverão ser transferidos para a Póvoa do Varzim e Estremoz, podendo o edifício vir a concentrar os centros de formação de Aveiro e Portalegre da GNR, embora não exista ainda uma decisão final.

A reportagem da Agência Lusa tentou obter declarações do actual comandante da EPST, coronel Silva Loureiro, relacionadas com o encerramento das instalações, mas não foi autorizada nesse propósito pelo Estado-Maior do Exército.

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