Expedição científica na Madeira marcou pela primeira vez espécie de baleia de profundidade
Uma equipa de investigadores da expedição Madeira Ocean 2026 conseguiu marcar, pela primeira vez, uma baleia-de-bico-de-blainville, indicou hoje a coordenadora científica Beatriz Vinha, realçando que este foi o principal marco da primeira etapa.
Em declarações à agência Lusa, Beatriz Vinha explicou que foi colocada uma `tag` de satélite, que ficará no animal cerca de seis meses, e que permitirá acompanhar a sua deslocação.
"É uma espécie que é muito difícil de avistar na Madeira, e segundo o que uma equipa aqui do Mare-Madeira nos conta, é a primeira vez que conseguem marcar este animal no Atlântico Oeste, e talvez, teriam que confirmar, em todo o Atlântico", apontou.
A coordenadora científica destacou esta marcação como um dos pontos altos da primeira etapa da expedição Madeira Ocean, que decorreu nas Ilhas Desertas e também no Funchal, entre sexta-feira e segunda-feira.
Beatriz Vinha acrescentou que esta espécie de baleia já havia sido avistada antes, mas, uma vez que são animais que costumam estar em mar profundo, é difícil aproximar-se deles e marcá-los.
"Esta marcação permite-nos entender mais sobre a sua ecologia, sobre a sua distribuição e, no fundo, conhecer mais sobre a importância da Madeira como `habitat` para estes animais", sublinhou.
Além destes marcadores, foram também utilizados outro tipo de `tags`, que ficam apenas colocados algumas horas e depois são retirados.
Foram igualmente utilizadas outras metodologias de investigação, como a utilização de BRUV`s (sistema de vídeo remoto subaquático), ROV`s (veículo subaquático operado remotamente) que identificaram campos de corais negros, recolhas de ADN, `manta trawl` e investigação na zona intertidal (entremarés).
Não foi possível fazer mergulho nas Ilhas Desertas, devido ao período de reprodução dos lobos-marinhos, tendo os mergulhadores trabalhado na zona do Cabo Girão.
Na segunda fase, que arrancou hoje e decorrerá na zona sul da Madeira até sexta-feira, serão utilizadas as mesmas metodologias de trabalho, indicou Beatriz Vinha, destacando os trabalhos nas áreas marinhas protegidas do Garajau e do Cabo Girão, "muito especiais e de referência" na região.
Os trabalhos científicos continuam a decorrer, mas hoje o histórico navio Santa Maria Manuela esteve atracado no Porto do Funchal, onde permanecerá na quarta-feira antes de arrancar novamente para o mar.
O antigo bacalhoeiro está aberto à população e está a acolher iniciativas com mais de 700 alunos de várias escolas da ilha.
Beatriz Vinha salientou que o envolvimento com a comunidade é importante para dar a conhecer os objetivos da expedição e sensibilizar para a importância da conservação dos oceanos.
A expedição, que termina em 28 de outubro, tem como principal navio o Santa Maria Manuela e inclui outras 13 embarcações, que estão a trabalhar no mar das zonas norte e sul da Madeira, nas Ilhas Desertas e no Porto Santo.
Os três principais objetivos são avaliar o estado atual das áreas marinhas protegidas da região autónoma, explorar novas áreas de interesse ecológico, bem como "criar um programa de monitorização para avaliar estas áreas protegidas e fazer estudos de avaliação de longo prazo", realçou Beatriz Vinha.
A expedição científica é promovida pelo Governo da Madeira, o Instituto de Florestas e Conservação da Natureza, a ARDITI - Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação, Tecnologia e Inovação, a Fundação Oceano Azul, o Oceanário de Lisboa e o programa Pristine Seas da National Geographic Society.
A investigação envolve 34 parceiros e cerca de 200 participantes nacionais e internacionais - dos quais cerca de 120 são cientistas -, combinando metodologias de ecologia, cartografia, oceanografia e biologia molecular para caracterizar diferentes ambientes marinhos.
Os trabalhos estão a ser realizados no interior e também fora de áreas marinhas protegidas, permitindo estabelecer comparações e identificar padrões relacionados com biodiversidade, conectividade ecológica e pressões humanas, e informar os decisores políticos.
Com o recurso a diferentes tecnologias, é possível explorar e estudar diferentes ambientes, desde zonas costeiras e mesofóticas, entre os 30 e os 200 metros de profundidade, até aos ecossistemas de mar profundo, entre os 200 e os 1.000 metros.