País
Fabian Figueiredo na Grande Entrevista com a experiência pessoal da violência na família
O deputado do Bloco de Esquerda Fabian Figueiredo esteve esta quarta-feira na Grande Entrevista da RTP com o tema da conversa centrado na sua experiência de violência familiar experimentada com os irmãos e a mãe. A entrevista desta noite retoma um artigo escrito há poucas semanas por Fabian Figueiredo - "A violência da normalidade" - sobre a sua vivência dessa realidade e que teve grande impacto na sociedade portuguesa.
A decisão de escrever sobre um assunto tão íntimo, explicou, deveu-se a um outro texto escrito por um amigo sobre uma realidade semelhante: "Um dia quero chegar lá. Quero poder falar e ver que eu próprio com os meus irmãos somos um número dessa estatística. Que eu consigo olhar-me ao espelho e ver-me inteiro, consigo falar".
Questionado pelo timing dessa abordagem pública da questão, explicou que o adiar não terá sido por vontade própria.
"Percebo a pergunta Porquê agora. Eu gostava de poder ter conseguido fazer isto muito mais cedo. Ter ajuda, de a procurar muito mais cedo".
Explicou depois, buscando uma frase que teria sido de Ernest Hemingway, que "escrever é sangrar. E de todas as coisas que escrevi esta foi a que me custou mais, porque me confronta com os meus fantasmas, com as minhas vivências".
Fabian Figueiredo exemplificou essas circunstâncias com as pequenas coisas, os pormenores quotidianos que prenunciam a violência, sendo já esses sentimentos "uma violência muito grande".
"As crianças que têm este tipo de percursos tornam-se como sismógrafos: nós aprendemos a ouvir com muita precisão a intensidade dos passos, se é lento, se é acelerado, se a respiração é mais pesada, mais desanuviada, se a chave da porta entra com mais força na fechadura. Porque a previsão da violência é ela uma violência muito mais insuportável do que a violência em si".
E nesta tipologia da violência deixou um exemplo pessoal: "Eu nunca tive uma negativa na vida. Sempre me esforcei por ser bom aluno (...) e no sexto ano, devia ter 11 anos [perante a possibilidade de ter uma negativa] resolvi fugir de casa".
Explicou que uma má nota, que devia ser "apenas uma má nota" não o era para a criança que foi a viver aquelas circunstâncias. É fruto de experiências como esta que, "ainda hoje, sempre que entro numa sala, leio a sala".
Ainda sobre este passado, lembrou uma frase que ainda hoje a mãe lhe repete: "Recorda-te sempre que nem todas as memórias eram infelizes".
Um outro aspeto abordado na entrevista desta noite foi a dimensão financeira da violência: como a incapacidade económica, de meios de subsistência, ajuda a perpetuar as situações de subjugação e violência no lar.
"A autonomia financeira é uma forma de liberdade essencial porque é a que permite escolher e no limite é a que permite sair de casa quando a casa é um problema", sublinhou, para explicar que essa foi uma condição que procurou desde muito cedo.
"Eu trabalhei na agricultura, na restauração, estive também ligado à investigação científica e mais tarde na assembleia da República. Encarei todos os trabalhos com a mesma dignidade. E sempre com a mesma preocupação: a independência financeira que eu queria conquistar o mais cedo possível".
Em determinado ponto, o deputado bloquista fez questão de dizer que se a sociedade falhou para consigo, os seus irmãos e a sua mãe, "se eu estou aqui sentado é porque eu tive ajuda. Eu tive amigos, tive vizinhos, professores que me deram outros modelos, pessoas que me acompanharam ao logo da vida que eu considero família, que me acolheram, que me ajudaram de todas as formas possíveis e imaginárias e também aos meus irmãos.
"Houve essa intervenção", sublinhou Fabian Figueiredo para desmontar a ideia simples do falhanço da sociedade, quando a realidade é mais complexa e comporta também esses círculos de amizade e relacionamento que não falharam.
Questionado pelo timing dessa abordagem pública da questão, explicou que o adiar não terá sido por vontade própria.
"Percebo a pergunta Porquê agora. Eu gostava de poder ter conseguido fazer isto muito mais cedo. Ter ajuda, de a procurar muito mais cedo".
Explicou depois, buscando uma frase que teria sido de Ernest Hemingway, que "escrever é sangrar. E de todas as coisas que escrevi esta foi a que me custou mais, porque me confronta com os meus fantasmas, com as minhas vivências".
Fabian Figueiredo exemplificou essas circunstâncias com as pequenas coisas, os pormenores quotidianos que prenunciam a violência, sendo já esses sentimentos "uma violência muito grande".
"As crianças que têm este tipo de percursos tornam-se como sismógrafos: nós aprendemos a ouvir com muita precisão a intensidade dos passos, se é lento, se é acelerado, se a respiração é mais pesada, mais desanuviada, se a chave da porta entra com mais força na fechadura. Porque a previsão da violência é ela uma violência muito mais insuportável do que a violência em si".
E nesta tipologia da violência deixou um exemplo pessoal: "Eu nunca tive uma negativa na vida. Sempre me esforcei por ser bom aluno (...) e no sexto ano, devia ter 11 anos [perante a possibilidade de ter uma negativa] resolvi fugir de casa".
Explicou que uma má nota, que devia ser "apenas uma má nota" não o era para a criança que foi a viver aquelas circunstâncias. É fruto de experiências como esta que, "ainda hoje, sempre que entro numa sala, leio a sala".
Ainda sobre este passado, lembrou uma frase que ainda hoje a mãe lhe repete: "Recorda-te sempre que nem todas as memórias eram infelizes".
Um outro aspeto abordado na entrevista desta noite foi a dimensão financeira da violência: como a incapacidade económica, de meios de subsistência, ajuda a perpetuar as situações de subjugação e violência no lar.
"A autonomia financeira é uma forma de liberdade essencial porque é a que permite escolher e no limite é a que permite sair de casa quando a casa é um problema", sublinhou, para explicar que essa foi uma condição que procurou desde muito cedo.
"Eu trabalhei na agricultura, na restauração, estive também ligado à investigação científica e mais tarde na assembleia da República. Encarei todos os trabalhos com a mesma dignidade. E sempre com a mesma preocupação: a independência financeira que eu queria conquistar o mais cedo possível".
Em determinado ponto, o deputado bloquista fez questão de dizer que se a sociedade falhou para consigo, os seus irmãos e a sua mãe, "se eu estou aqui sentado é porque eu tive ajuda. Eu tive amigos, tive vizinhos, professores que me deram outros modelos, pessoas que me acompanharam ao logo da vida que eu considero família, que me acolheram, que me ajudaram de todas as formas possíveis e imaginárias e também aos meus irmãos.
"Houve essa intervenção", sublinhou Fabian Figueiredo para desmontar a ideia simples do falhanço da sociedade, quando a realidade é mais complexa e comporta também esses círculos de amizade e relacionamento que não falharam.
Em relação à questão de perdoar o agressor, o seu pai, confessou que "é um processo de realização de que da fúria, do ressentimento, da raiva não nasce nada que eu queira preservar em mim. Eu quero andar para a frente".
É nesta perspectiva que diz querer "chegar aos 40 com três tês: tranquilidade, temperança e tempo".
Questionado sobre o eventual receio de, como o seu pai, vir a reproduzir este círculo de violências, Fabian Figueiredo sublinhou a importância de "o que precisamos de fazer quando crescemos com estas realidades traumáticas é perceber o quão erradas elas são e para isso a terapia, o pedir ajuda".