Falta apoio a doentes dependentes de familiares idosos
O coordenador nacional do maior estudo europeu sobre esquizofrenia alertou hoje para a "falta de apoio" de "uma faixa importante" de doentes portugueses que dependem unicamente de familiares cada vez mais idosos.
Em declarações à Agência Lusa, João Marques Teixeira, que é também director-clínico do Centro Hospitalar Conde de Ferreira, salientou: "É muito importante que rapidamente se activem redes de apoio para este doentes que, caso contrário, ficam entregues à caridade ou acabam como sem-abrigo".
A esquizofrenia é uma perturbação mental grave caracterizada por uma perda de contacto com a realidade, alucinações, delírios, pensamento anormal e alterações do funcionamento social e laboral, que atinge uma em cada cem pessoas.
O médico esclareceu que os doentes em maior risco são pessoas cuja faixa etária ronda os 40 anos, com esquizofrenia diagnosticada há mais de dez anos, que não beneficiaram das possibilidades de reabilitação permitidas pelos medicamentos mais recentes e que estão muito dependentes de familiares.
"Ora estes familiares têm agora entre 60 a 70 anos e vivem o drama de serem confrontados com a possibilidade de morrerem sem que os seus doentes tenham uma estrutura que os apoie", sublinhou João Marques Teixeira.
A grande dependência dos doentes esquizofrénicos portugueses em relação aos seus familiares é precisamente um aspecto realçado pelo estudo SOHO (Schizophrenia Outpatient Health Outcomes), que envolveu cerca de onze mil doentes de Portugal, Espanha, França, Dinamarca, Alemanha, Grécia, Irlanda, Itália, Holanda e Reino Unido.
Os resultados finais do estudo são apresentados sexta- feira, no 2º Encontro de Lisboa sobre Esquizofrenia, e seguem a tendência de grande dependência assinalada numa publicação de dados preliminares do SOHO, no número de Julho/Agosto do ano passado da revista `Saúde Mental`.
De acordo com os dados então apresentados, os doentes portugueses mais dependentes na situação de residência do que os europeus (33 por cento em Portugal versus 48 por cento na Europa), têm mais dificuldades em estarem empregados (19 por cento versus 24 por cento) e têm menos actividades sociais (59 por cento versus 67 por cento).
Comparativamente aos europeus, os doentes portugueses são também aqueles que têm uma tendência menor para terem uma relação com um cônjuge ou companheiro (19 por cento versus 30 por cento).