Falta de água deixa albufeiras à míngua e preocupa agricultores

A falta de chuva está a deixar as albufeiras portuguesas com baixos níveis de armazenamento de água, começa a preocupar os agricultores e já levou o Governo a antecipar o pagamento dos apoios comunitários ao sector.

Agência LUSA /

Segundo dados disponíveis na página da Internet do Instituto da Água (Inag), quase todas as albufeiras portuguesas estão com um défice de armazenamento de água em relação à média, sendo a situação do rio Arade, em Silves, a mais problemática.

Também hoje, a Rede Eléctrica Nacional (REN) disponibilizou dados na sua página da Internet que mostram que a capacidade de armazenamento das albufeiras portuguesas em Dezembro era de 44 por cento, metade do desejável nesta altura do ano, segundo o especialista em recursos hídricos Bento Franco.

"Estamos numa época húmida, era desejável que as albufeiras estivessem acima dos 80 por cento. Em Dezembro de 2003 a capacidade era de 64 por cento e esse nem foi um ano muito chuvoso", sustentou o especialista, em declarações à Lusa.

Quando uma albufeira tem um défice de armazenamento, a rega é a primeira a ser afectada, para salvaguardar o abastecimento de água às populações.

Por isso, os agricultores portugueses começaram a manifestar a sua preocupação, com a confederação do sector a salientar que a situação mais grave é a das pastagens.

Para compensar, o ministro da Agricultura, Costa Neves, anunciou hoje que o Governo decidiu antecipar o pagamento dos apoios comunitários aos agricultores.

"O Governo decidiu antecipar as verbas, algo que está previsto na legislação comunitária em casos excepcionais, atendendo ao facto de se estar a atravessar um período de Inverno de seca", afirmou o ministro.

Para a fraca capacidade de armazenamento das barragens tem contribuído a falta de chuva, que levou já o presidente do Instituto de Meteorologia, Adérito Serrão, a dizer que a situação em algumas zonas de Portugal é de "seca extrema".

O Instituto de Meteorologia diz que os níveis de precipitação entre Setembro e Dezembro em Portugal são os mais baixos dos últimos 13 anos nalgumas regiões, como em Viana do Castelo.

Nalgumas zonas dos distritos de Santarém, Leiria e Beja a situação é já classificada de "seca extrema" e "seca severa".

"A escassez de chuva está a reflectir-se no teor de humidade de água no solo. No Alentejo e Algarve as plantas começam a sofrer de stress hídrico", acrescenta uma nota hoje enviada à Lusa pelo Instituto de Meteorologia.

No entanto, o ministro do Ambiente desdramatizou o período de seca que afecta algumas regiões em Portugal, considerando que não se justificam medidas excepcionais.

O Instituto da Água (Inag) considera que "ainda é cedo para avaliar se se vai entrar num período seco", já que os meses de Janeiro, Fevereiro e Março "podem inverter totalmente a situação".

"Em relação às albufeiras ainda é cedo para dizermos se estamos numa situação problemática", disse à Lusa Cláudia Brandão, responsável do Inag.

Considerou ainda que a única situação que pode causar preocupação é a do rio Arade, que está com menos 40 por cento de armazenamento de água em relação à média dos últimos anos.

"No final de Janeiro é que deve ser feito um ponto de situação, que é o que fazemos habitualmente", acrescentou.

Também o presidente da Junta Metropolitana do Algarve, Macário Correia, apelou hoje à população algarvia para que se mantenha serena face à falta de água nas barragens, alegando que há mais de 30 furos subterrâneos que podem ser activados em caso de necessidade.

A associação ambientalista Quercus exigiu entretanto a aplicação "urgente" do Programa Nacional para o Uso Eficiente da Água, que em finais de 2001 foi apresentado pelo então governo socialista.

Nesse programa eram propostas cerca de 80 medidas para o sector urbano, agrícola e industrial, e uma maior penalização para os consumidores que mais água desperdiça, através da alteração dos tarifários e intervalos de facturação.

A Quercus lembrou que no consumo urbano e agrícola mais de 40 por cento da água é desperdiçada, enquanto na indústria os desperdícios são de 29 por cento.

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