Falta de pensamento e de uso de materiais endógenos dificulta resposta a intempéries
A falta de pensamento sobre cidades e espaço público, a forma desagregada como são tomadas decisões sobre mobilidade, e o descuido com materiais endógenos às regiões expõem populações aos riscos do mau tempo, alertou hoje a especialista Paula Teles.
"Quanto ao espaço público, é preciso cada vez mais, e isso é claríssimo, termos materiais mais permeáveis, e termos uma aposta muito grande na integração com a estrutura verde e a estrutura azul. Respeitar os leitos dos rios, as inclinações, no fundo o ecossistema. (...) Sempre desvalorizamos o material da Terra, as plantas, as espécies, os materiais próprios do lugar. E o que percebemos com as catástrofes é que temos cada vez mais de valorizar o que é endógeno", explica à Lusa Paula Teles, especialista em mobilidade urbana.
A presidente do Instituto de Cidades e Vilas com Mobilidade (ICVM) olha para os efeitos do mau tempo do último mês como um sinal de que não se pode "construir em tudo quanto é lado", exigindo decisões "muito grandes e muito rápidas" a esse respeito, mas não só quanto a novas construções, também quanto à eventualidade de se ter de "eliminar edificado" mais vulnerável.
Para a especialista, que critica a qualidade da construção em muitos casos pelo país fora, "o facto de o `simplex` urbanístico vir cada vez mais a assentar em projetos que não têm de ser licenciados" cria uma tendência para que cada vez mais os proprietários "façam tudo o que é mais barato, e mais barato é mais simples, e mais simples é mais frágil".
Os danos, prejuízos, e pelo menos 18 mortes entre janeiro e fevereiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, devem lançar o alerta para uma visão "holística" do urbanismo, seja nas grandes cidades como Lisboa ou Porto, seja em urbes mais pequenas.
"Temos de ter uma estrutura forte de transportes coletivos, rodoviários, ferroviários, porque temos a ferrovia muito acentuada nesse território, que podia estar muito mais bem desenvolvida, com bons parques de interfaces, boas coberturas, bons edifícios, edifícios calculados por engenheiros e desenhados por arquitetos, que tenham conhecimento, para podermos, no futuro, ter edifícios mais fortes, mais capazes e resilientes à força da Natureza, que cada vez é maior", acrescenta.
Ainda assim, continua "a ver muitas ruas que não têm pensamento nem para uma sarjeta para águas pluviais", e considera o debate sobre "retenção de águas" e solos determinante para o futuro das cidades, que deve integrar "conhecimentos, fazer transversalidade dos temas e dar respostas rápidas", o que exige mudança metodológica e técnica.
"Acabou o tempo de pensarmos de forma setorial nas áreas. `Bem, o engenheiro trata disto, o arquiteto trata disto, vem o jardineiro`...", exemplifica.
É para convidar à reflexão e ao debate sobre a mobilidade nas cidades da Península Ibérica que a Rede de Cidades e Vilas que Caminham organiza a quarta edição do Congresso Nacional dedicado ao tema, a 26 e 27 de março, na Fundação Manuel António da Mota, no Porto.
O evento vai reunir autoridades locais e nacionais para discutir boas práticas, visão política e mobilidade do ponto de vista de quem anda a pé, numa rede que junta já meia centena de cidades portuguesas e 150 espanholas.
"Hoje há uma relação direta muito importante entre a mobilidade e a saúde pública. Nós temos dados que comprovam que as cidades que têm pessoas a caminhar mais são cidades que têm menos pessoas com doenças", destaca Paula Teles.
Considerando a mobilidade como o segundo "direito maior", depois da habitação, muitos dos desafios atuais apresentados pelas alterações climáticas devem ter resposta de "cidades e territórios mais bem planeados para uma mobilidade mais descarbonizada".
"Nós temos de rapidamente fazer um planeamento de mobilidade diferente, temos de resgatar espaço ao automóvel, em particular nas cidades, e ter uma política muito grande de transporte público e de modos suaves", acrescenta.