Família brasileira integrada no projecto de combate à desertificação da Câmara de Vila de Rei diz que passou "meses de sofrimento"
Uma das quatro famílias brasileiras incluídas no projecto de combate à desertificação da Câmara de Vila de Rei alega ter passado "meses de sofrimento" e pretende contar "toda a verdade", sexta-feira, em conferência de imprensa.
"Foram meses muito complicados, de muito sofrimento. As promessas da dona Irene Barata [presidente da Câmara de Vila de Rei] não foram de forma alguma cumpridas" disse hoje à agência Lusa Cecília Fraga, jornalista e ex-assessora de imprensa no Brasil.
Cecília Fraga agendou para sexta-feira, em Castelo Branco, uma conferência de imprensa destinada "a explicar tudo o que aconteceu" desde a altura em que as famílias foram seleccionadas para vir de Maringá para Portugal, até aos dias de hoje.
"Não vínhamos preparados para nada disto. Jamais teria trazido os meus filhos, teria vindo sozinha", disse, adiantando esperar da comunicação social a mesma atenção que foi dada à chegada das famílias, "pois é importante que se saiba toda a verdade".
A família de Cecília Fraga é a terceira a abandonar Vila de Rei, indo fixar-se "próximo de Lisboa", segundo afirmou.
Em Setembro uma família rumou a Cascais e outra estabeleceu-se no vizinho concelho da Sertã.
No concelho apenas se mantém, em São João do Peso, numa casa entretanto alugada, a família de Marcelo e Letícia, ele informático, ela psicóloga, que trabalham num centro de acolhimento.
Apesar das "deserções", a Câmara de Vila de Rei afirma ter cumprido tudo o que prometeu aos brasileiros e acusou-os, em comunicado enviado em Outubro às redacções, de falta de vontade de trabalhar.
A autarquia alegou, entre outros aspectos, que o que falhou no processo "não foi a sua organização, mas a vontade das pessoas que vieram".
Cecília Fraga considera que essa alegação "é a verdade da dona Irene Barata", e afirma-se disposta a explicar o porquê da diferença entre aquilo que "realmente aconteceu" e o que afirma a autarquia.
Entretanto, a 20 de Outubro, a autarquia de Vila de Rei anunciou a suspensão, por tempo indeterminado, do projecto de repovoamento do concelho, embora a presidente de Câmara mantenha a intenção de lhe dar seguimento.
"Por agora, está parado e vai continuar assim por alguns meses. Vamos arrumar ideias, analisar o que esteve menos bem.
Continuará quando for oportuno" disse Irene Barata, na altura, à Agência Lusa.
O projecto de repovoamento do concelho de Vila de Rei está envolto em polémica desde o início, em Maio, aquando da chegada de quatro famílias brasileiras.
A 04 de Maio, 15 pessoas, entre adultos e crianças, foram recebidas em festa em Vila de Rei, após deixarem Maringá, uma cidade de 300.000 habitantes no estado do Paraná, para viverem em São João do Peso, aldeia nos arredores da sede de concelho.
O projecto da autarquia pretendia inverter a tendência de despovoamento do concelho, acolhendo imigrantes oriundos daquela cidade brasileira geminada com Vila de Rei para trabalhar em três lares de idosos, um projectado e dois em construção no município.
Na altura da chegada dos brasileiros, a presidente do município afirmou à Lusa que o objectivo do projecto passava por fixar no município 50 famílias brasileiras até final do mandato.
A polémica instalou-se logo nos primeiros dias, nomeadamente através de uma manifestação de cerca de seis dezenas de nacionalistas, promovida pelo Partido Nacional Renovador.
Concentrados frente à Câmara Municipal, a 13 de Maio, criticaram os "colonatos estrangeiros", protestando contra "a colonização promovida pela autarca Irene Barata com o dinheiro dos impostos" dos portugueses.
Ao longo dos últimos seis meses sucederam-se críticas ao projecto, nomeadamente através de um empresário do sector da restauração, que acabou por empregar os adultos brasileiros e, mais recentemente, do presidente da Associação Brasileira em Portugal (ABP).
O empresário Carlos Marçal queixou-se do fracasso do projecto e revelou que a iniciativa só lhe trouxe "prejuízos".
Já Ricardo Amaral Pessoa, presidente da ABP, frisou que o projecto "falhou redondamente" nos seus objectivos.
"A Câmara teve a visão de repovoar o concelho, mas a forma de o fazer é que foi errada. O projecto falhou redondamente. Quem fez a selecção das pessoas foi mal assessorado juridicamente, trazer um professor, uma psicóloga e uma jornalista para trabalhar com idosos é uma estupidez", criticou.
"Se queria brasileiros para trabalhar, aproveitava os que existem em Portugal", acrescentou.
Apesar das críticas, Irene Barata recusou sempre o falhanço do projecto: "Não considero que tenha falhado. Foi mais uma nuvem, uma fumaça que se projectou sobre a iniciativa" disse a autarca, após a divulgação do comunicado da Câmara.
Já sobre a saída das famílias brasileiras do concelho considerou tratar-se de "um processo normal na vida dos seres humanos".
"As pessoas movimentam-se, são livres de o fazer", sustentou.
Na conferência de imprensa agendada para as 15:00 de sexta- feira num hotel de Castelo Branco, Cecília Fraga estará acompanhada do presidente da Associação Brasileira de Portugal e de uma família de Vila de Rei da qual a jornalista diz ter recebido apoio "nestes dias de sofrimento".