Fernando Negrão, o candidato "objecto não identificado na política"

O candidato social-democrata à Câmara de Lisboa, Fernando Negrão, é um independente que tem ocupado vários cargos políticos pelo PSD, e classifica-se como um "OPNI" ("objecto político não identificado").

© 2007 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A. /

Foi ministro da Segurança, da Família e da Criança no governo de Pedro Santana Lopes (PSD/CDS-PP), deixou recentemente a vereação na Câmara de Setúbal, onde garantiu ao PSD o melhor resultado de sempre naquele distrito, e é actualmente vice-presidente da bancada parlamentar social-democrata.

Encabeça agora a lista do PSD às eleições intercalares de 15 de Julho para a Câmara de Lisboa, mas nunca se filiou no partido.

Apesar da sua condição de independente, Fernando Negrão diz que não se revê nas críticas de Carmona Rodrigues (ex-presidente da autarquia da capital e candidato independente pelo PSD nas últimas autárquicas), que recentemente acusou os partidos de "tentar de todas as formas expelir os corpos estranhos".

O presidente dos sociais-democratas, Marques Mendes, convidou-o para liderar a lista concorrente à câmara da capital e não precisou de esperar muito pela resposta: Negrão aceitou o convite no próprio dia.

"Não tenho por costume protelar as minhas decisões", explicou à agência Lusa.

Sobre ele, o líder social-democrata destacou a "seriedade, rigor e grande competência", frisando que a sua candidatura à Câmara de Lisboa tem "credibilidade, prestígio e enorme competência".

Casado e pai de dois filhos, Fernando Negrão "entrou" para a política como cabeça-de-lista pelo PSD de Faro nas eleições legislativas de 2002, chegando a ser várias vezes apontado como candidato às pastas da Justiça e da Administração Interna.

Por estar na política, acredita que tem "obrigação de aceitar desafios, desde que tenha condições de o exercer com dignidade e preparação".

Apesar de considerar este desafio "difícil", defende que "ser presidente da Câmara de Lisboa, mesmo com todas as dificuldades, é um orgulho muito grande para qualquer português".

Fernando Negrão rejeita que tenha sido uma "última" escolha do PSD, depois da recusa do presidente da Câmara de Sintra, Fernando Seara, de encabeçar a lista dos sociais-democratas à autarquia lisboeta.

"Depois de mim, havia mais mil", sustenta, enquanto ressalva ter sido "a primeira escolha fora do `naipe` partidário".

Fernando Negrão foi juiz durante 20 anos, tendo passado por Albufeira, São Jorge (Açores), Ferreira do Alentejo, Alenquer, Lisboa (no tribunal da Boa-Hora), Setúbal e Barreiro.

Em Lisboa, a cuja câmara se candidata, esteve de forma intermitente desde que nasceu em Angola, há 51 anos: viveu nas Avenidas Novas, entre os cinco e os 12 anos e, mais tarde, enquanto estudou Direito (concluiu em 1980 a licenciatura em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa).

Regressou à capital enquanto exerceu no tribunal da Boa Hora, mas tem vivido, por razões familiares, em Setúbal, onde a mulher é médica, admitindo no entanto voltar novamente a viver em Lisboa.

Na Boa Hora, fez parte do colectivo que julgou o "mediático" processo da Saúde, que sentou no banco dos réus o ex-secretário de Estado da Saúde, Costa Freire, e José Manuel Beleza, irmão da antiga ministra Leonor Beleza.

O candidato social-democrata afirma que, ainda hoje, tem "muitas vezes" a atitude de um juiz, o que o tem "defendido" de se "envolver demasiado nas coisas numa perspectiva de preto e branco".

"Tenho mantido a capacidade de distanciamento relativamente às situações. É positivo porque me impede de um envolvimento demasiado grande, ao mesmo tempo que me dá uma independência muito grande para a decisão", diz.

Exemplo disso, adianta, é o facto de nunca ter perguntado a nenhuma das pessoas com quem trabalhou de que partido era.

"E sempre trabalhei muito bem com toda a gente", garante.

Negrão foi director-geral da Polícia Judiciária entre Novembro de 1995 e Março de 1999, tendo sido demitido pelo então ministro da Justiça, o socialista Vera Jardim, acusado de violar o segredo de justiça no "Caso Moderna".

Mais tarde, o Tribunal da Relação de Lisboa decidiu não levá-lo a julgamento, uma decisão confirmada em 2001 pelo Supremo Tribunal de Justiça, após recurso do Ministério Público.

Durante o meu mandato à frente da PJ, Negrão concluiu com sucesso as investigações sobre um atentado na discoteca Mea Culpa, em Amarante.

Fernando Negrão foi mais tarde coordenador nacional da luta contra a droga e presidente do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT), já no governo de Durão Barroso.

A entrada neste organismo responsável pela prevenção e combate à toxicodependência foi polémica, depois de Fernando Negrão ter visto rejeitados os convites para integrar a direcção do IDT que dirigiu a João Goulão, antigo presidente do Serviço de Prevenção da Droga e da Toxicodependência (SPDT), e a Manuel Pinto Coelho, proprietário de duas clínicas de recuperação de toxicodependentes, convite que ambos declinaram.

João Goulão recusou trabalhar com Manuel Pinto Coelho, que por sua vez já manifestara sérias reservas quanto à política desenvolvida na área do tratamento.

O IDT resultou da fusão do SPDT com o então Instituto Português da Droga e da Toxicodependência.

A sua experiência na luta contra a toxicodependência leva-o, por exemplo, a discordar da criação de salas de chuto na capital, uma proposta aprovada pelo anterior executivo e da responsabilidade de Sérgio Lipari Pinto, ex-vereador da Acção Social no último mandato, que ocupa actualmente o quinto lugar na lista de Negrão à autarquia.

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