FERVE nasce no Porto para aquecer luta contra falsos recibos verdes em todopaís
Fartos de "contratações" com falsos recibos verdes, uma psicóloga e um jornalista do Porto lançaram em Março um grupo de trabalho para denunciar o "canibalismo laboral" que atinge em Portugal milhares de trabalhadores, de professores a engenheiros.
Na casa dos 30, Cristina Andrade, é psicóloga no Centro Novas Oportunidades do Porto (antigo centro de reconhecimento de competências) onde trabalha desde 2004 em regime de recibos verdes.
Tal como milhares de outros trabalhadores em todo o país, cumpre as obrigações inerentes a quem trabalha por conta de outrém, mas sem as mesmas regalias.
Cumprem horários e respondem a um superior hierárquico, mas têm que pagar do seu bolso a Segurança Social, o IRS e o seguro de trabalho, sem direito a férias pagas, subsídio de desemprego e de doença ou licença de maternidade.
Foi para pôr em contacto pessoas que "passam recibos verdes", que se juntou ao amigo André Soares para criar o FERVE: Fartos/as d`Estes Recibos Verdes, um grupo de trabalho para "denunciar situações de ilegalidade e criar um espaço de debate" na sociedade sobre o uso errado de recibos verdes, disse Cristina Andrade à agência Lusa.
O nome do grupo pretende reflectir, segundo a responsável, a frustração e o desgaste de quem passa anos ameaçado pela precariedade de um emprego sem conseguir, por exemplo, comprar uma casa.
"Ficámos muito felizes quando encontrámos esta sigla porque reflecte exactamente o nosso estado de espírito, estamos a ferver, estamos fartos desta situação", desabafou.
Sem dados fiáveis sobre o número de trabalhadores nestas condições, Cristina Andrade estima que sejam milhares, quer no sector público quer privado.
"O Estado é a primeira entidade a incumprir", denuncia a psicóloga, que aponta como exemplo muitos dos trabalhadores dos Centros Novas Oportunidades, os professores contratados para leccionar inglês no ensino primário ou os técnicos de projectos do programa comunitário Equal.
Apesar do recurso a falsos recibos verdes abranger todas as profissões, segundo Cristina Andrade é em áreas como o jornalismo, o ensino e a formação ou a psicologia que esta realidade é mais acentuada e se arrasta por mais tempo.
"Nos centros de formação há pessoas a recibos verdes há mais de 20 anos", sublinhou.
Cristina Andrade considera que entre os falsos recibos verdes e a contratação colectiva tem de haver uma solução intermédia para retirar da precariedade estes trabalhadores.
Assim, os responsáveis do FERVE prometem trabalhar para que seja possível introduzir alterações à lei laboral que permitam, por exemplo, e à semelhança do que acontece em Espanha, a existência de contratos de trabalho diários. Por agora, o FERVE tem sobretudo expressão num blog na Internet (http://fartosdestesrecibosverdes.blogspot.com e a divulgação segue a máxima "junta o teu ao meu e-mail", mas o grupo tem já agendados debates em duas faculdades do Porto para alertar os actuais alunos e futuros trabalhadores para estas situações.