"Festas das Papas" em Samão revive mezinha medieval

A aldeia serrana do Samão, em Cabeceiras de Basto, vive já uma grande azáfama na preparação, para sábado, da Festa das Papas, celebração religiosa com raízes pagãs, disse hoje à Lusa fonte da autarquia.

Agência LUSA /

Reza a lenda que os aldeãos acreditam que o alimento servido na festa, papas à base de carnes de porco, contém uma «mezinha» sobrenatural.

Segundo Maria João Baptista, do Gabinete da Presidência da Câmara de Cabeceiras de Basto, a «mezinha» alegadamente contida nas papas serve, não só para a protecção das pessoas, mas também para a dos animais domésticos.

"Isso faz com que os fiéis tragam pedaços de «carolo» [de papas] para casa a fim de os darem aos animais de sua estimação", afirma Maria João.

A responsável adianta que "a chamada Casa do Santo, com um grande forno a lenha e a lareira, recebe já os preparativos das mãos dos mordomos escolhidos pela comunidade local, que farão a desmancha dos porcos para confeccionar as papas", salientou.

Os suínos, de onde sairá a carne mais gorda para o ofertório aos fiéis de S. Sebastião, estão prontos para a desmancha e a broa de milho tem a farinha e o fermento em preparação.

"Para que nada falte no dia consagrado à festa", disse.

Os potes gigantes em ferro, foram limpos para cozer as "papas", uma espécie de caldo de farinha, no qual são introduzidos pedaços do "carolo" da carne de suíno.

O campo que vai servir de mesa ao "manjar" já não tem ervas daninhas, para que ali sejam estendidas toalhas de linho com 20 metros de comprimento e 60 centímetros de largura, sobre as quais serão colocados os alimentos espaçados pela distância de uma vara [seis metros].

Esta missão - sublinhou Maria João - "cabe a um homem, devidamente preparado para a tarefa, que tem de conseguir que os alimentos cheguem para todos os forasteiros".

No espaço de cada vara são colocados, uma broa de milho, uma posta de toucinho e uma tigela de vinho verde.

"A partir desta regra, as pessoas que se reúnem em longas filas duplas dividem entre si o «menu» que, mais do que saciar o apetite do dia, procura obter compensações do sobrenatural, ou seja, da «mezinha» contida nos alimentos depois desta ser benzida".

Desta benzedura encarrega-se o pároco da freguesia, acto realizado na Casa do Santo, seguindo-se uma procissão com o andor de S. Sebastião à frente e dois carros de bois que carregam broas e as tigelas com as «papas» com destino ao «campo de jantar».

As «Papas» são uma festa popular muito antiga, que se perde na memória dos tempos e que, segundo a lenda, é a evocação de uma tragédia que se abateu na região em meados do séc. XIV.

"Nessa época, uma grave crise económica e social, associada à peste negra que atingiu a Europa, deixou muita gente em condições miseráveis", assinala Maria João.

Na sequência da peste uma boa parte da população das aldeias morreu e os animais foram dizimados.

"Foi tal a situação que só as graças divinas poderiam ser remédio salvador para tantos males", salienta a responsável.

Segundo a lenda, em seguida os habitantes sobrevivos iniciaram os festejos a S. Sebastião, enquanto santo advogado da fome, da peste e da guerra, como forma de lhe agradecer a protecção divina para não sofrerem idêntico "castigo".


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