Festas "trance" em Portugal chegam a custar 10 mil euros

As festas "trance", marcadas pela música electrónica e consumo de drogas, movimentam milhares de pessoas em Portugal e a sua organização chega a custar 10 mil euros ou mais, disse hoje o antropólogo Luís Almeida Vasconcelos.

Agência LUSA /

"Estas iniciativas são um empreendimento economicamente arriscado para quem as organiza", declarou o investigador à agência Lusa no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra, no final da conferência "Trance - Festa, percepção e transformação da consciência", que apresentou no âmbito do I Ciclo Anual de Jovens Cientistas Sociais.

à semelhança de outros países, estas festas são realizadas quase todos os fins-de-semana, de Norte a Sul de Portugal, geralmente dentro de tendas de circo, em locais ermos e de "grande beleza" natural, disse, durante a sessão.

Segundo Luís Vasconcelos, predomina nelas "um ideal de transformação" e de respeito pela natureza e os participantes percorrem nalguns casos 500 quilómetros para poderem fruir a "viagem" na sua totalidade, em sentido físico e sensorial ("trip", viagem em inglês), através, designadamente, do consumo de alucinogénios.

No entanto, "a toma de drogas é apenas um momento de um conjunto de actos correlativos".

A "trip" - e todo o programa, que pode preencher um fim-de- semana, incluindo as deslocações -, "é uma viagem que se pretende com regresso", sublinhou.

"Estas iniciativas são produzidas com um espaço de intensidade sensorial e relacional", disse.

Explicou que os participantes cultivam o gosto pela música electrónica de "batida forte" e partilham "uma ideia de exotismo a nível visual", preferindo roupas com cores fortes."A dimensão performativa é essencial", afirmou.

à luz da investigação sobre o tema, que iniciou há um ano e meio, no âmbito da preparação do doutoramento, Luís Vasconcelos concluiu que, em termos políticos, as pessoas que acorrem habitualmente às festas "trance" simpatizam ou votam - as que votam - no Bloco de Esquerda e no PCP.

"Isto tem tudo muito de paradoxo. Estas pessoas têm um discurso de crítica social, mas estão geralmente muito bem adaptadas ao pós-modernismo e àquilo que a esquerda tende a combater, como o desemprego, que vêem como `janela de oportunidade`", adiantou.

Luís Vasconcelos, antropólogo social e cultural, é técnico superior do Instituto da Droga e da Toxicodependência e investigador associado do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

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