Figueira (Penafiel) mobiliza 1/6 da população para adorar o Menino
Um em cada seis moradores da menos populosa freguesia do distrito do Porto veste domingo a pele de actor para participar num dos mais antigos e conhecidos "autos de reis" da região.
De dois em dois anos, e desde tempos imemoriais, é assim: a freguesia de Figueira, Penafiel, de 270 habitantes, junta 40 "actores" locais numa recriação do momento em que o Menino, deitado na palha, foi adorado pelos três reis magos.
Para assistir a esta encenação são esperadas três mil pessoas, não só das freguesias envolventes mas também de toda a região Norte, admite Ângelo Guedes, a "alma" da iniciativa.
Seguindo a tradição dos últimos anos, a organização convida algumas figuras públicas a assistir à encenação, tendo garantido já as presenças do antigo presidente do Parlamento, Barbosa de Melo, natural da freguesia, do "popular" Lobo Xavier, que ali tem uma das suas residências, e do bispo auxiliar do Porto, actual administrador apostólico da diocese, D. António Taipa.
Ângelo Guedes salientou que esta encenação surgiu como forma de atrair moradores de freguesias vizinhas e fazê-los contribuir para as festividades da terra, em honra de Santa Marinha, que se realizam a 18 de Julho.
Na actualidade, o auto já só representa despesa - cinco mil euros, este ano, suportados pela instituição privada de solidariedade social Associação de Desenvolvimento de Figueira - mas continua muito acarinhada pela população.
Com acompanhamento musical pela banda da vizinha freguesia de Lagares, os primeiros andamentos têm lugar logo ao início da tarde frente à Junta de Freguesia e daí partem, como compete aos Reis Magos, à procura da Estrela.
Esta, quase tão grande nos céus como a original, segue, no seu tom amarelo forte, no topo de uma altíssima estaca transportada por um eleito a quem compete "guiar" os passos dos reis Gaspar, Baltazar e Melchior.
A estrela lá vai à frente, solitária, e 20 a 30 metros atrás, refreando os seus cavalos para acompanharem aquele astro "pedestre", seguem os três reis, de vestes coloridas, peles sobre os ombros e longas barbas a cobrir a face - excepto Melchior, que por motivos óbvios aparece com a cara pintada com graxa.
Ao princípio os Reis Magos seguem sozinhos, guiados pela estrela que lá vai à frente, mas aos poucos, conforme a comitiva atravessa a parte antiga da freguesia, vão ganhando companhia.
Pastores, camponeses, lavradeiras, todos vestidos a rigor à antiga portuguesa, juntam-se ao cortejo, uns com burros, outros com ovelhas ou cabras, todos para verem o Menino que acabou de nascer.
E o Menino lá está, verdadeiro e de carne e osso, descansadinho nos braços da Virgem Maria num Presépio montado com muita palha num atrelado instalado na praça principal da freguesia.
Mas antes de reis e pastores chegarem ao Messias têm de passar pela Casa de Herodes, onde dialogam, em cantos e refrões ensaiados no último mês, com o velho soberano que pretende saber onde está aquele que julga lhe vai disputar o trono.
Reis Magos cá em baixo, Herodes lá em cima, os actores vão trocando frases rimadas: "Digníssimos soberanos/segui o vosso destino/na volta vinde por aqui/dar-me parte do menino", "Descansai real senhor/que fica a nosso cuidado/na volta por aqui vimos/notar o que for passado".
Entretanto, a comitiva segue para o outro lado da praça, onde a cena continua frente ao Presépio. Aí Herodes puxa da espada e reproduz, irado, a profecia: "E tu Belém, terra de Judá!/com seres menor entre as cidades de Judá!/Pois de ti há-de sair o Senhor/que há- de governar a Israel, meu povo".
Pouco depois, já desconfiados e decididos a não dar a Herodes as informações de que precisa para matar o Menino, os reis estão já aos pés de Jesus, a quem oferecem ouro, mirra e incenso.
O bebé que faz de Menino é entregue nas mãos do Santo Velho Simeão, que toma conta dele em nome da Igreja e entrega posteriormente, a criança, nas mãos do sacerdote.
No fim, já com o Jesus salvo nas mãos da Igreja, vai tudo comer o grande lanche oferecido pela organização do auto, que isto de representar autos ao ar livre em pleno Inverno abre muito o apetite.