Filha de Miguel Torga brinda à vitória de Manuel Alegre
A filha de Miguel Torga abriu hoje pela primeira vez a casa do escritor, em S. Martinho de Anta, Sabrosa, a um candidato presidencial, Manuel Alegre, garantindo que "certamente não a abriria" a nenhum dos seus adversários.
Clara Crabbé Rocha, apoiante da primeira hora de Manuel Alegre, já este ve presente noutras acções de campanha, como o comício de Coimbra, mas desta vez deu a cara e, numa atitude muito rara, abriu a casa à própria comunicação socia l para que esta registasse como ela recebia o candidato presidencial.
Alegre, que foi amigo pessoal de Miguel Torga - classificou-o de seu "p ai espiritual" e de "Viriato da língua portuguesa" -, foi hoje em "peregrinação" , como disse, à casa onde o escritor nasceu e viveu na parte final da sua vida.
"Estou muito comovida", desabafou Clara Rocha, com os olhos vermelhos d e lágrimas, depois de ter oferecido um "vinho fino" do Douro a Manuel Alegre, co m o qual brindaram "à surpresa" que esperam a 22 de Janeiro, e de ter lido um tr echo do prefácio que o candidato escreveu à fotobiografia de Miguel Torga.
No texto, Alegre, que assumiu ter com Torga uma relação "poeticamente f ilial", refere, numa alusão à empatia que os dois tiveram desde o primeiro momen to e que se prolongaria até à morte do escritor: "De repente, tínhamo-nos conhec ido desde o início do mundo".
A "peregrinação" começou junto ao busto de Miguel Torga instalado na pr aça principal de S. Martinho de Anta, cuja testa Alegre beijou depois de deposit ar no chão um ramo de flores.
Na coluna que sustenta o busto pode ler-se "Aqui/neste lugar/e nesta ho ra", ao lado de uma placa que recorda a homenagem prestada em 2002 no local pelo ainda Presidente da República, Jorge Sampaio.
Manuel Alegre, Clara Crabbé Rocha e várias dezenas de pessoas seguiram depois para a casa onde Torga viveu e que "excepcionalmente", como referiu a fil ha do escritor, foi aberta à comunicação social.
Questionada sobre se abriria as portas da casa a mais algum candidato à s eleições presidenciais, Clara Rocha não podia ser mais clara: "certamente não abriria esta casa".
"Gostaria de ver um homem da cultura e poeta na Presidência da Repúblic a. Isso só pode dignificar e enriquecer Portugal", acrescentou.
à saída, no quintal que separa a casa da rua, Manuel Alegre afirmou que "cada um tem os seus templos".
"Para mim, este é um deles, é solo sagrado. Poucos, ao longo da Históri a, simbolizaram tanto a portugalidade e a Pátria como Miguel Torga", disse.
"Vim aqui de certo modo pedir a sua bênção", acrescentou, considerando que o escritor, se fosse vivo, "gostaria" da sua candidatura presidencial e reco rdando que, nos anos de exílio, "quando queria `entrar` em Portugal lia sobretud o Miguel Torga".
E repetiu o verso do escritor que desde o início da sua campanha eleito ral tem usado: "Temos nas nossas mãos o terrível poder de recusar".
"Este verso exprime de maneira muito clara a liberdade que temos nas no ssas mãos", frisou.
Antes, num almoço com dezenas de apoiantes em Vila Real - o único distr ito onde não possui uma sede de candidatura - Manuel Alegre afirmou que o combat e às desigualdades entre interior e litoral "não se faz com com SCUT`s, mas com a reinvenção da agricultura e a criação de empregos".
"A defesa do território hoje não é militar, mas ambiental. O nosso inimigo chama-se o desemprego, a pobreza e a desertificação", acrescentou.
Alegre garantiu que o seu movimento "é muito mais do que qualquer partido político, porque é transversal a todos" e que a cidadania que preconiza permitirá criar "novas formas de organização política e económica" por parte dos portugueses.