Físicos do Porto desaceleram luz pensando em futuro computador óptico
Físicos da Faculdade de Ciências do Porto estão a "desacelerar" a velocidade da luz, tentando assim contribuir para uma das "coqueluches" da investigação mundial: A possibilidade de fabricar processadores e memórias ópticas para futuros computadores ópticos.
Para já, a possibilidade de construir computadores que usem luz em vez de electrões é ainda uma utopia, mas investigadores de todo o mundo trabalham di ariamente para que tal seja possível, até porque a revolução que isso iria provo car no mundo informático seria brutal.
"Um computador actual (electrónico) tem uma velocidade de relógio da or dem de um Gigahertz (mil milhões de Hertz). Se o mesmo passasse a funcionar com luz, esta velocidade saltaria automaticamente para os 50 Terahertz (qualquer coi sa como 50 milhões de milhões de Hertz). Na prática, seriam dez mil vezes mais r ápidos que os actuais", explicou à agência Lusa Helder Crespo.
Este físico da Faculdade de Ciências do Porto exemplificou: "Uma operaç ão matemática que actualmente demoraria dois dias a ser concluída por um computa dor normal estaria resolvida em 17 segundos num computador óptico".
Para além de acelerar a velocidade das operações informáticas, o uso da luz permitiria que elas fossem efectuadas em simultâneo num número muito maior.
"A electrónica, como o nome indica, utiliza electrões, que se repelem m utuamente, pelo que as operações possíveis a cada momento são limitadas. A tecno logia da luz usaria fotões, que não sofrem desse problema, pois praticamente não interagem uns com os outros"", disse.
"Havendo forma de parar a luz ou reduzi-la para velocidades muito lenta s, será possível aprisioná-la. Ora, se essa luz aprisionada contiver informação e puder ser manipulada, seremos capazes de construir computadores a luz", explic ou.
O único problema é que "ninguém sabe ainda como se faz um computador óp tico digital prático", pelo que há muita investigação ainda pela frente.
"Estamos tão longe de construir um computador óptico quanto estavam dis tantes dos actuais PC`s os cientistas que há 59 anos inventaram o primeiro trans ístor electrónico", disse.
Os cientistas já conseguiram uma grande vitória ao elaborarem, graças à fotónica (tecnologia que permite controlar a luz com a própria luz), os primeir os transístores ópticos.
Para já, disse o investigador, "há ainda muito trabalho de laboratório a realizar" e foi nesse sentido que o Departamento de Física da Faculdade de Ciê ncias do Porto construiu o seu próprio "desacelerador" de luz.
"Trata-se de uma montagem experimental e não de um aparelho que se poss a comprar no mercado. Tivemos nós de o construir, o que desde logo constituiu um a excelente aprendizagem no que toca à técnica envolvida na operação", disse Hel der Crespo.
Numa primeira fase, os investigadores portuenses conseguiram reproduzir em laboratório os resultados do norte-americano Robert Boyd, que em 2003 descob riu que com o recurso a um simples cristal de rubi sintético era possível desace lerar a luz, dos 300 mil quilómetros por segundo, a que ela normalmente "viaja", para apenas 60 metros por segundo, ou seja, 216 quilómetros por hora.
Já desde 1999 que tecnicamente se conseguia esse feito, chegando-se quase a parar a luz, mas para tal era necessário equipamento extremamente comple xo que enchia várias salas e a experiência tinha de ser realizada a uma temperat ura muito próxima do zero absoluto.
Numa segunda fase, os cientistas do Porto, em colaboração com colegas d a Universidade Complutense de Madrid, vão experimentar lasers de tipos diferente s do utilizado por Boyd, procurando generalizar os princípios avançados pelo inv estigador norte-americano.
Hoje basta uma pequena mesa de laboratório com um laser e meia dúzia de aparelhos ópticos para realizar o feito e espera-se que, dentro de alguns anos, qualquer pessoa possa usar nos seus computadores portáteis este verdadeiro "mil agre da luz".